"Da mesma forma, e ao longo de todos os anos de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro [...] Essas inconsequências são admiráveis, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa alí o seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanhã, ele queria tanto amanhã, quando ele próprio deveria ter se recusado inteiramente a isso. Essa revolta da carne é o absurdo."
Como afirma Camus; eu também sou carregada pelo tempo e espero ansiosamente uma curva que me obrigue a percorre-la. E, desta forma, com que relutância me vejo idêntica aos demais, que, inconsequentemente, almejam por esse inimigo que nos acorrenta ao hábito de ter fé no futuro. Que fraqueza, que ingratidão! Eu só queria aceitar essa idade sem me fazer perguntas que só deveriam revoltar a minha carne daqui a dez anos. No entanto, como odeio os anos que ainda faltam para que eu consiga, finalmente, afirmar minha juventude que fora, de alguma forma, arrancada de mim algum tempo atrás. A verdade é que eu nasci velha.