11 julho 2009

Capacidades

Hoje me lembrei de um dia fugaz e, ao mesmo tempo, sem total importância. Eu saía da Igreja com minha avó materna – Dona Nilza, doceira de mão cheia e mineira com vontade – e ia tomar sorvete de chiclete na Almeida. Nisso se resumia meus sábados de manhã. Missa das crianças e depois o sorvete (havia dezenas de sabores, mas eu sempre escolhia o chiclete). Era o único dia que eu podia comer doce antes do almoço. Não me lembro de nenhuma característica da Igreja Padre Eustáquio, do Padre ou da missa. Mas recordo, com perfeição, da minha avó me pegar pela mão, atravessar a rua, me oferecer sorvete e me levar de volta para casa. A mim e o sorvete que logo lambuzaria todo o meu rosto de dez anos. Que já era redondo assim, mas ainda por cima possuía um sorriso “aparelhado”.

Não me preocupava em agradar Dona Nilza, porque sempre tive um espírito forte que se contentava em responder as minhas vontades, apenas. Muito me arrependo. Se pudesse prever toda essa nostalgia que me estapeia as manhãs de sábado, eu teria aceitado, de bom grado, ser evangelizada e também teria decorado todas aquelas frases do tipo “ele está no meio de nós”. No entanto, por um ímpeto de nascença, nunca houve em minha vida mínima esperança ou fé de que algo ou alguma coisa estivesse olhando por mim e acompanhando meus passos. Em bem verdade, eu nunca desejei que houvesse algo tão desocupado que perderia seu tempo medindo meus atos ou os de qualquer outro humano medíocre como eu. Eu não via necessidade física ou emocional de criar um Deus para mim e sempre me orgulhei disso.


Mas um dia me chamaram de “racional”. De um jeito grosseiro, impiedoso e profundamente sincero. Colocaram minha capacidade de amar em prova e isso me alarmou. Naquele dia, eu olhei para o céu que é divinamente bonito nos fins de tarde de Brasília e pensei que poderia haver algo ali. Por um momento pensei em minha avó e na fé desesperada que ela tinha em Deus e na capacidade que esse Deus tinha de melhorar nossas vidas. Eu olhei para o céu e fiquei esperando por essa capacidade. Mas o sol me cegou e eu me senti tragicômica. Porque faz exatamente seis anos que não tomo sorvete de chiclete. E então eu sorri, para a minha avó, para o meu sorvete e para a certeza que, mesmo racional assim, não existe ninguém nesse mundo que seja mais capaz de amar do que eu.