09 novembro 2009

Impulso


O primeiro sinal foi rasgar um por um dos cento e cinqüenta e quatro diferentes papéis de bala, edição especial “dia dos namorados”, que a Big-Big fez em 2001. Rir em voz alta de cada um deles, como se qualquer gesto tão sugestivo jamais conseguisse representar outra coisa a não ser desespero. E desde criança, eu tinha muito medo do desespero. Talvez porque ele afugentasse a razão humana e transformasse qualquer coisa em abrigo disfarçado, talvez porque o desespero seja o sentimento mais cruel existente, desses que a gente só sente quando o mundo inteiro faleceu ou quando se têm quatro anos e encontra-se a si mesma completamente sozinha no shopping mais movimentado da cidade. Mas o fato é que eu tinha medo do desespero.


Depois decorei, como boa menina, a frase absoluta: “não é com você, é comigo”. E a repeti algumas vezes sem compreender que o abandono completo era mais íntegro do que uma desculpa tão esfarrapada.


Os anos se passaram e as possibilidades de solidão eram tão atraentes que a minha energia era desperdiçada nos inúmeros personagens que criei e nas cartas que enviei aos que possuíam endereço. O meu azar foi que alguns personagens não sabiam nem ao menos ler, ou não percebiam a força de minhas metáforas e como o mundo seria perfeito se os meus desejos fossem realizados. No geral, por recíproca deles ou por cansaço meu, foram quase todos assassinados ou esquecidos, assim como minha mania de tentar prever o futuro com os diferentes oráculos estudados nos círculos de Wicca. Eu fui atingida pela inegável realidade do tempo e pela inegável mediocridade dos personagens que nunca eram tão bons como na minha cabeça. Porque a vida nunca é tão boa como na minha cabeça.


Gabriel García Marquez confessou, no “Cheiro de Goiaba”, que chorou durante duas horas depois de matar o Coronel Buendía. Entrelaçado nos braços de sua mulher, ele entendeu por ser o próprio criador, que seu personagem mais importante, companheiro presente em toda a sua obra, precisava ir embora mais cedo ou mais tarde. Pois existem tramas, anteriores a nós, que já estão preparadas para serem escritas e vivenciadas. Existem personagens enraizados no nosso subconsciente, desde antes da consciência de inconsciente, que estão fatalmente destinados a nos pertencer e depois morrer. Como tudo, no ciclo imperdoável da vida, os personagens morrem para que novas tramas sejam possíveis e para que as mais importantes experiências possam ser imortais no coração de quem existe. De quem compõe, ou escreve, ou declama, ou tenta fugir de alguma forma dessa existência pavorosa.De alguém como eu, como os meus personagens, como Gabriel. Pessoas com porta de entrada no meu mundo.


Desejo, desesperadamente, enterrar os personagens que ainda passam pelos meus olhos no sábado à noite. Para que os reais sejam tocados pelos meus sentidos inebriados. Eu me embriaguei de sonhos, tão apaixonada pelas imagens criadas por mim que todo o resto me é nada. E o que me aconteceu foi transformar-me também em imagem, em sonho, em mentira. Intocável para os que me queriam por estar tão imensamente ocupada com o que eu queria. Pois o que eu quero agora é ser alguém para alguém que saiba ler, goste de metáforas e exista, não como personagem, mas de verdade, de uma forma menos pavorosa. Que componha, ou escreva, ou declame, ou desenhe, mas que me ame de madrugada. Alguém com esperança.

18 outubro 2009

Navegar é impreciso

Eu apalpei meus lados, primeiro reconhecendo terreno e depois dando tapinhas sutis nos ombros, como se a vontade dos dedos pudesse afastar a solidão forçada ou os pensamentos desejosos. Não tentaria te explicar as construções suplicantes de Gaudí e nem mesmo o amor perdido quando pronunciou as palavras finais que andam a vagar por uma Barcelona embaçada (eu ia te explicar a modernidade da minha Brasília límpida). A verdade é que poderia me chamar de covarde mas não doeria mais do que a repulsa que já sinto por minhas frases não ditas. Seu barco em linha reta por todos os caminhos que te afastam de mim e também por entre as pernas de outra que talvez não sejam tão macias e confortáveis como as minhas seriam. O que não posso provar e por isso, é apenas uma suposição vaga: essa de que minha vontade é tão involuntária e suprema que todo o meu corpo pensaria ser melhor se fosse dado a ele a chance de te reconfortar. Caso contrário, para nada ele serve, a não ser se permitir glorioso nas noites de imaginação. Meu corpo estremece, ressentido, só de pensar na possibilidade de tal inutilidade ser comprovada. Mas quando a fúria reprime o calafrio, percebo o engano de nós dois, que pensamos tão diferente sobre esse específico assunto. Em oposição a você, penso que a vida não é curta e, em oposição a Pessoa, navegar não é preciso. A vida é a única chance de jogar à maré sua bússola e perder-se infinitas vezes, mais até do que Ulisses. Navegar sem rumo, à deriva, e talvez encontrar mais aventuras do que o necessário. Mais longevidade do que o premeditado e mais pernas, e mais línguas e mais barcos. E definitivamente, não fincar sua âncora em Barcelona. Não a deixe enferrujar, é sempre hora de partir. Porque é preciso navegar, mas de forma imprecisa (até chegar a mim).

17 outubro 2009

Res

Ando abandonada. Por vários sentimentos, principalmente, e também porque às vezes sinto que ser abandonada é ter um passo a frente. Mas esta talvez seja uma covardia claustrofóbica. Apesar de quatro paredes não me assustarem em nada, nem sei como expressar. É lá fora que mora o perigo. Imenso e perturbador que me aflige a ponto de trancafiar-me a romances meia boca e filmes assistidos as pressas madrugada a fora. Não sei nomear a fobia de vida que possuo e todo o melodrama também não me deixa alegre ou contente em ser eu mesma. É como um vazio. E chaves e cadeados me impedem de fugir disso tudo. Porque às vezes acordo sobressaltada de qualquer devaneio e percebo, colérica, que sou humana como qualquer outro. Sem coisas especiais a minha volta ou prévias de amanhã. Apenas essa certeza masoquista de que existe um amanhã que quase me mata de tédio. Certeza absoluta que não parece ocorrer a todos: arrepio de todos os pêlos e respirar confuso. Mas o corpo se acostuma a me forçar a respirar, quando perco assim, por momentos, minha consciência de toque, de vento, de frio ou até de dor. E coisas que me ardem por dentro começam a explodir em minha mente que se sente traída e traidora por acreditar, por um segundo, em experiências extracorpóreas. Ou mais que isso, experiências que vêm de antes. De quando eu não me sentia tão triste por ser somente o mesmo, todos os dias e provavelmente, também amanhã. Com certeza amanhã. Essas experiências que terapia não resolve, que parecem nos levar a resoluções acima do bem ou do mal, resoluções de caráter, posturas sólidas e irrevogáveis. Coisa que não vem de berço, criação ou vivência. Coisa que vem de dentro. É quando me perco nisso que sinto o sol paralisado, esquentando minha face da Terra, fazendo possíveis os pavores das eras que virão, quando não terei mais esse ar enfraquecido nos pulmões e quando o fato de ser humana, como qualquer outro, não amargue esperanças alheias no amanhã. O fato de não ser mais nada colore o mundo nas particularidades sutis que passam desapercebidas aos meus abandonos.

06 outubro 2009

Compleaños

Digamos que são vinte anos, todos corridos como bolas-de-gude no gramado. A mim, e confesso meio tímida, é preferível os anos corridos aos pulos como as pedrinhas achatadas que, jogadas de maneira calculada, tomando por força e distância, e alguns insistiriam também em um pouco de sorte, vão de encontro à água do rio – que nunca será o mesmo, no mesmo espaço e tempo – e pulam serelepes até se curvarem a incrível força da gravidade e se repousarem bem no fundo, local onde se passam todas as armações de Narizinho. Mas, por palpite, acredito que seus vinte anos não são pedrinhas, e sim bolas-de-gude. O que me leva a afirmar que se trata de outro tipo de personalidade - em comparação com a minha - e por esse motivo, nós dois não conseguimos nos compreender nem mesmo pelo espaço de tempo de uma bolinha que perde o rumo no chão desnivelado ou de uma pedra que encontra seu repouso na lama do rio. O que é problema pequeno, frente ao respeito que temos um pelo outro.

Por sorte, eu me desvencilho dos problemas como dos mosquitos que, às vezes, me perturbam o sono (e não entender nossos dias em comum era como um mosquito que me tirava a tranqüilidade do travesseiro). Não tanto por sorte, eu fiz o que achava certo e definitivamente, tomei o caminho mais fácil. Mania antiga, veja bem. Isso graças a bons anos que foram pulados no meu laguinho, como os de perdas e também os anos de super-informação (lê-se 2006).

Esse é meu primeiro desejo para você: que aprenda a esquecer os mosquitos, ao invés de se desvencilhar deles. Porque, afinal de contas, os coitados só vivem, em média, durante um dia. No entanto, te desejo também uma contínua superioridade de caráter e uma coragem sobre-humana, que eu sei que você possui resolutamente em sua personalidade (ao contrário de mim), para permanecer de pé como o dono de calças compridas (metáfora caipira para “gente grande”) que você é, não somente agora devido aos últimos ocorridos, mas desde o primeiro dia que te conheci de verdade. Quero deixar registrados os meus desejos e também o profundo carinho que sinto quando te ouço falar sobre todas as coisas, inclusive meus defeitos confundidos entre as suas paranóias. E também explicar, em um ímpeto de meia-noite, que mais vale essa saudade serena do que os profundos dias de eufórica dúvida que me cometiam quando eu não conseguia entender e expressar meus sentimentos por você.

Simples assim: eu compreendo as suas bolas-de-gude com um respeito que é mais importante do que a aceitação. Eu fico feliz de sentir sua presença nos dias de críticas (que são todos) e mais ainda nos dias em que você aparece de xadrez. Eu quero que se inicie agora uma fase de calmaria jamais sentida por você, primeiro porque você merece e segundo porque tem o meu apoio para isso. E quero que compreenda que sinto inveja das bolas-de-gude, mas que eu me acostumei severamente à brincadeira do rio, o que definitivamente é melhor do que viver a vida como o um iô-iô.

Você me apareceu em um dos momentos fugidios em que a pedrinha encosta na superfície finíssima da água do rio. Como se repele um calafrio, a água repele a pedra achatada que dá um rodopio no ar e volta renovada sem os pavores do último pulo. Eu repeli a super-informação. O que não significa que perdi as lembranças na nova queda.

Bom de te ter por essa bolinha-de-gude, verde assim.

29 setembro 2009

Dos diálogos que ouvimos em pontos de ônibus

- Do livro dos livros, minha filha. A palavra da salvação.
- Não, obrigada.
- Aceite. Que mal há nisso? Vejo que anda perdida, é coisa que se percebe pelo olhar, pelos vícios.
- Não é para se compreender. Dizem por aí que a cada cigarro perde-se 15 minutos de vida, é nisso que acredito. Trata-se de minha crença principal. Mas por cinco segundo sente-se uma tremedeira nas pernas que me valem a eternidade, como uma força superior que vem de dentro, os dedos dos pés se esticam todos e é, nesse momento, que eu percebo toda e qualquer existência. Não acho que a senhora vá entender, mas Deus provavelmente sabe. Os meus motivos são muitos.
- Mais vale a saúde da alma.
- Nem todos acreditam em alma. Eu entendo bem de abstinências. São impossíveis de se explicar. Porém, algumas são inatas. Por exemplo, nasci com uma abstinência de amor quase sobrenatural e penso mesmo que Deus quis assim.
- Não diga isso, você não pode saber. Deus tem muitos planos para você. Falta você querer realizá-los.
- Desculpe, mas estou convencida que, quando fecho os olhos tragando 15 minutos de minha vida, sou tão confundida pelo vício como a senhora o é quando fecha os seus e repassa, mentalmente, alguma oração. São drogas diferentes, é claro, mas ambas nos fazem viver menos. Eu em quantidade e você em qualidade.

24 setembro 2009

2006

Tinha um lenço na lapela que cheirava a colônia (herança de alguém) e andava como um doido procurando coisa alguma sem que ninguém pensasse que lhe faltava o que quer que fosse. Estratagema de imagem. Ela se sentia uma tola por não ter nada daquilo que tanto precisava e por estar sempre pelos cantos se lamentando da serenidade perdida ou das moedas caídas dos bolsos furados. Mania de berço de se fazer de vítima e não esconder a necessidade vital de ser acalmada e acariciada, religiosamente. Tinha a certeza absoluta de que ele era incapaz de amá-la e de compreender as letras e significados implícitos nessa palavra - amor - tão forçosamente importante a todas do seu gênero. Acredito que, por culpa do senso que ele tinha de realidade, ela era apenas um deleite que lhe acontecia quando se cansava demais disso tudo o que é natural. Pois se amavam em outro plano e toda vez que encostava seus sussurros na audição dela provocava choques de consciência que negavam todos os pavores do mundo. Era como um eterno tobogã. Bebiam café enquanto ele fazia monólogos sobre os mais variados assuntos, que ela não precisava compreender. Enquanto isso, ela planejava alguma frase, junção de sílabas, que o convencesse a voltar, quem sabe, no mesmo dia. Caso acontecesse, a cachaça da cabeceira ia o embebedando de tanto carinho, enquanto ela contava sobre o dia banal, sobre as horas sem ele, sobre os minutos de saudade. Seu sorriso debochado permanecia por toda a noite, e os lábios abertos que sempre deixaram claro o tamanho da sua liberdade. Mas com uma paciência jamais vista nesta cidade, ela abria os braços que logo eram recompensados com a certeza de que era o colo dela, o peito dela, o encaixe dela que tanto lhe fazia falta. Porque de completo, eles só tínham a cama de solteiro que obrigava suas pernas a ocuparem o mesmo espaço. Disso tudo ela aprendeu a dizer sim, palavra fácil e macia se dita ao lado dele.

E, de tanto dizer sim, acabaram acorrentados, mas, dessa vez, a um compromisso social de dividir a cama de casal, sem que tentem, por momento algum, ocupar o mesmo espaço.

18 setembro 2009

Cortázar, meu querido.


Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas com soberania liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.


Você me olha, de perto me olha, cada vez mais perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam um dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só salva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.


10 setembro 2009

O Homem Macaco

A coisa mais triste do mundo é quando pessoas escolarizadas preferem permanecer na ignorância. Algo está errado para seguir tal anomalia de consciência. Sinto-me ferida, como se essa fosse uma necrose também na história da humanidade. Por outro lado, não possuo forças para discutir com os cegos de coração ou pior, os surdos que não ouvem os ecos, os gritos, as fúrias da sociedade desigual. E minha mortália me agoniza. O mundo permanece, enquanto bate a porta o meu suicídio social. A cada novo passo um pavor maior me domina. A descrença desvia meu sopro de luz, amaldiçoo o tempo e me obrigo a uma infertilidade forçada. Habitar esse mundo é o maior castigo, em tempo que a vida é adorável em inumeráveis particularidades. Não resta muito aos que odeiam a passividade, temem a morte e amam a vida, a não ser o desprezo. É um desprezo tão grande que altera a condição de existência. É um desprezo tão grande que descolore as relações humanas, como uma alergia sufocante e mortal.
O engraçado, o temoroso, o sádico é que tais pessoas conseguem ser amadas, de forma que o fruto de suas ignorâncias também é plantado em outros, talvez mais passivos e provavelmente mais indiferentes. E como uma epidemia, a ignorância cria sua morada, esparrama-se por entre os que ainda possuiam alguma reflexão. E eu, finalmente vencida, sou condenada a cruz eterna de viver entre os homens sem pensamentos.

"Estão assim até hoje nossas bandeiras.
O povo as bordou com sua ternura,
coseu os trapos com seu sofrimento.
Cravou a estrela com sua mão ardente.
E cortou, da camisa ou do céu,
o azul para a estrela da pátria.
O vermelho, gota a gota, ia nascendo."
- Neruda

08 setembro 2009

O Diabo senta a mesa

"Há quem diga que o diabo faz campana nas encruzilhadas, em busca de desavisados para sugerir tentações e os persuadir.
Já haviam se passado das dez da noite e na pequena televisão do bar transmitia-se um jogo qualquer de futebol. A televisão pequena, posta em um canto acima de um empilhado de engradados vazios, estava repleta de chuviscos e ruídos que só atraiam a atenção de poucos, quase ninguém - Não que pudesse atrair a atenção de muitos, já que, o público presente não ultrapassava dez. Eis que, as atenções, quase inexistentes, se voltam para um homem que implorava ao dono do estabelecimento uma cerveja fiada. O proprietário relutava e o pedinte gritava promessas de paga-lo, no máximo, em dois dias.
O dono, além de dono, era garçom, faxineiro, bedel e caixa, talvez até mesmo psicólogo, nunca se sabe. E pela freqüência quase religiosa de seus clientes fiéis, todos os presentes sabiam que ali, no comando, estava um homem avarento – Murrinha, mão de vaca, sovina, como preferirem. O inesperado então passou desapercebido aos olhos de dois (dos quatro que ainda acompanhavam a súplica alcoólica, em tom de mendigância). O exato momento em que uma sombra de complacência, quase angelical, tomou, por poucos segundos, o rosto daquele dono de bar. Olhou-o silenciosamente de cima a baixo e lhe permitiu uma cerveja fiada, como o carrasco que ouve o último pedido de sua vitima, mas só uma.
-Se ele fosse um maltrapilho, vestido em pano de saco e cinzas, o pedido de fiado não teria sido contemplado, não com a mesma misericórdia.
Existem penas e penas. Temos pena de meninos e homens de rua, sujos, que passam fome, que dormem nas calçadas e se cobrem com papelão. Mas nem sempre damos atenção a isso por pensar que aquela é, e sempre foi, sua condição irrevogável. Temos uma pena diferente quando vemos engravatados moribundos que se arrastam pelas paredes e não conseguem se manter em pé nem para pedir um copo de cachaça. Ao vê-los, nasce uma pergunta natural: “O que foi que os aconteceu?”. Ao vermos a quebra do paradigma social, para pior, nos enxergamos alí... E sentimos uma complacência maior, por medo.
O dono do triunfo da cerveja fiada era um homem de meia idade, com rugas e poros bem abertos. Calças e sapatos sociais, camisa rosa-claro e uma gravata com cores combinadas (que os modistas condenariam sem pensar duas vezes) que ele já não usava como recomendaria o bom figurino... Pois fizera dela um cachecol, um lenço que vivia caindo no chão em suas falas mais exaltadas – que eram muitas. Tinha cabelos lisos, um tanto oleosos, que não cobriam nem metade de sua testa grande. Seus olhos eram pequenos, mas estavam, na maioria do tempo, arregalados – Fazia parte de sua gesticulação natural. O nariz grosso com uma ponta fina o conferia uma certa harmonia, ainda que bizarra, com a boca larga que alternava bicos e mordidas labiais com acenos de cabeça. Parecia que, em tempos pretéritos, ele havia sido vaidoso. E que as desmazelas de sua aparência atual eram herança dos vícios e da escancarada loucura que estampara seu rosto e alma.
Adquirida a dádiva sublime da cerveja concedida aquele homem resolvera, como todo bom bêbado, chato e perturbador, pedir para se sentar com as únicas duas moças presentes no bar. E as duas, como não costumavam ser rudes a quem quer que fosse, permitiram a ousadia. Para impressiona-las com seu conhecimento o homem fazia comparações entre elas e celebridades pouco famosas. Ao ver que o entusiasmo era quase nulo, pediu a palavra dizendo-lhes que tinha algo muito importante a dizer sobre a vida, e disse:
- Quem sobe batendo, desce apanhando.
A primeira moça o olhou e acenou como se concordasse, embora a vontade que tinha fosse de gargalhar, pois sempre achara graça de frases feitas e senso comum.
-Eu pesava 140 kilos e sabe o que eu fiz? Duas palavras: Alcachofra Composta! Uma após cada refeição e continue comendo o que quiser tranqüilamente...O peso vai saindo, saindo, saindo.
Deu uma pausa e olhou pra baixo, fitando a gravata caída no chão...
-Eu vejo que vocês duas são pessoas muito inteligentes, jovens. Se apeguem a fé, ou a deus, ou ao diabo...Existe sombra sem luz? Me diz, existe sombra sem luz? Eu sou o diabo, vocês sabiam? Eu sou o diabo...
As duas moças, já despidas de simpatia, se entreolhavam com ares de quem acaba de ser ofendido. Talvez pela sugestão de um produto emagrecedor milagroso – Elas não precisavam daquilo. Talvez pela sugestão de deus, diabo e apego – Elas também não precisavam daquilo. O dono do bar olhava de longe toda aquela cena, como um pastor que cuida de suas ovelhas. Apesar da avareza já citada, era um bom comerciante. Sabia que clientes satisfeitos acabam sempre voltando. Notou que, de certa forma, aquele homem que se intitulara o demônio incomodava as garotas. E como um pai superprotetor, vez ou outra, interrompia a conversa para perguntar se o homem as incomodava. Elas diziam que não, pois não tinham coragem para dizer o contrário – Remeto, mais uma vez, a teoria da pena.
As falácias sobre sua origem diabólica prosseguiam e o homem mostrava-se cada vez mais atordoado. Seu discurso se embolava em diversas crenças e testemunhos de uma vida, que parecia, torpe.
- Eu já vivi demais e por isso não falo da juventude. Sou casado há muito tempo e minha mulher já não se importa mais. Não tenho filhos, mas quero ter. Se deus nos fez a sua imagem e semelhança ele deve ser muito louco. Pensem assim ó, como deus que levou um tempão pra criar isso tudo. Eu posso ser quem eu quiser, eu sou o diabo! Me apego na sombra, porque não existe sombra sem luz. Eu vejo que você é clarividente – Disse olhando para a primeira garota e dizendo mais uma vez
– Pensa, se deus criou isso tudo...Você consegue pensar nisso?
E a primeira moça, já sem muita paciência, responde:
-Mas...Eu não acredito em deus.
-E no diabo, você acredita?
-Também não.
A segunda moça, menos tímida e mais inteligente, se intromete de repente:
- Deus e o diabo não existem porque são representações humanas.
E antes mesmo que terminasse a frase, ele sussurou:
- Desde que te vi, gostei de você...Você é uma intelectual, tem um grande entendimento da vida, lê muitos livros, mas eu... Eu sou só diabo.
Dito isso, levantou-se com uma grande convicção de si mesmo, de saber ser quem dizia que era, mesmo que não fosse. Tamanha certeza trazia consigo uma coisa estranha no ar, um pouco mística e um tanto folclórica. Ele transformaria céticas em crédulas por alguns instantes, se o olhassem com profundidade nos olhos? Se as perguntassem, negariam. Porque nem a maior autoconfiança do mundo o poupava dos tropeços e da falta de equilíbrio ao andar – É que a fisiologia está acima da maioria das convicções racionais.
Superado os dilemas e todos os minutos, o diabo se retirou. Arrastando a garrafa fiada, completamente seca, e sumindo pela porta, em direção as ruas já vazias, como o ator principal que ao fechar das cortinas, despe-se do personagem e pode se transfigurar em um homem somente, carnal. Não mais procurando uma encruzilhada ou uma mesa de bar."
Porque relato bem contado a gente republica.
Obrigada amiga, por estar sempre comigo
- mesmo no dia de conhecer o Diabo.

03 setembro 2009

O querer.














































E eu que sempre pensei que não sabia o que eu queria.
Pois, aí está.

Sobre o amor para viver

O mundo está vazio. Esquecido entre os velhos que jogam xadrez na esquina. Escondido entre as faixas publicitárias dos muros. Invisível nos bancos coloridos das praças. Pisoteado nas folhas caídas da estação. Evaporado nos sonhos dos que cansaram de sonhar. O mundo está vazio. Somente nós dois percebemos isso. Eu e você e o mundo vazio, coexistimos sem saber existir. Talvez seja porque a voz foi calada e nada mais nos importa, ou o tempo ficou atarefado para nos juntar de novo, ou a cama desarrumada sente saudade do calor de nós. Se acaso o mundo se enchesse de você, dessa vez, pianinho, do jeito mansinho que deve ser, com a voz em compasso, sussurraria baixinho que eu te quero. Eu te quero. Eu te quero. E só de imaginar, o mundo vazio se enche de vida. De amor para viver.

29 agosto 2009

Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.

- Carla Dias
*Medo de ouvir sua voz de novo, meu bem e pavor de deixar de ouvi-la, também.

26 agosto 2009

Aos que amam a hierarquia.

Nos calamos todos. Matamos os sonhos de se embrenhar no serviço público a favor do povo, do nosso povo. Não fazemos mais parte do povo, temos nojo dele. E são sonhos fugidios que abandonarão, também, a geração de amanhã. Toda aquela necessidade de voz gritada, de bandeira arqueada, de sociedade justa não passava de contexto histórico. As desculpas mudaram, usamos drogas por outros motivos e transamos para esquecer de nós mesmos. Usamos as pessoas para outros fins, odiamos o mundo e vivemos nessa revolta, conscientes da importância fugaz de arriscar a vida em roleta russa. Ou de apenas viver a vida em roleta russa. E há o salto que não saltamos como há o discurso que não discursamos. Padecemos em ignorância, em ócio, em silêncio. A impossibilidade coerente de abandonar a apelação. E o deus que todos amam, se omite a favor da hierarquia. O povo nojento permanece anônimo e as cadeiras do congresso estão preenchidas dos anônimos de anteontem, que já não fedem mais. “Meu campo”, diz Goethe, “é o tempo” e essa é a palavra absurda de quem espera a eternidade irrisória.

Eu só espero não morrer de cansaço.

16 agosto 2009

Verídico

- Ela disse que vai se matar. Que não sabe viver sem ele. Que não se lembra de como era viver antes dele. Que não quer reaprender a caminhar. Eles estão a cinco anos juntos, não acho tanto, mas eu realmente não me lembro dela me contar alguma coisa que não o inclua. Mas parece que ele quer mesmo ir embora e ela está decidida a morrer.
- Isso é muito bonito.
- Não é bonito nada, é drama.
- Então, drama é sempre bonito.
- Pois eu nunca vi ninguém morrer de amor. Você já viu?
- Sim, eu já vi.
- E quem foi?
- Romeu. Romeu morreu por amor.
- Mas você não o conheceu, conheceu?
- Ontem, nos meus sonhos...

"Morrer de amor não é difícil, não. Se atirar do edifício.
Viver de amor é que é difícil. Se atirar"

10 agosto 2009

Avec Les Utopies

É verdade que do coração sei pouca coisa. Como também é verdade meu vergonhoso desconhecimento sobre todos os outros órgãos humanos. Afora, claro, a imaginação. Porque, depois de todas as páginas e anos (e o fato de eu ser única entre os irmãos que nunca tive), o órgão que mais utilizei e que me salvou das mais cruéis tempestades foi a imaginação (e por ser tão vital a nomeio de órgão). Não estou tentando sugerir que possuo algum dom, não. Em bem verdade, o que quero dizer, mas não consigo, é que, talvez, a imaginação te dê motivos para continuar. Comigo sempre funcionou. E quando a minha não me bastava, eu me munia da imaginação alheia. É o único órgão que é divisível, sem nunca, jamais, diminuir seu quociente. Porque você divide e isso te engrandece. Tal e qual o fígado, a imaginação se reconstitui. Por isso, sempre existirá uma personagem, ou um diálogo, ou uma tomada, ou um fragmento, ou um arranjo que completará tua existência de tal forma que parecerá estranho ter vivido anos sem experimentar tal resolução. Trata-se de se sentir vivo e completo, mais uma vez, ainda que por um momento. E que me perdoe todo esse sentimentalismo, mas acho mesmo que tudo se relaciona ao amor. Vive quem ama ou caso contrário, padece por dentro. O amor nunca conseguirá ser tão colorido quanto na imaginação dos homens. Porque o amor, que é vital a todos os órgãos, só se deixa ser saudável na imaginação. Acaso em outro lugar ele poderia ser eterno e imortal, como quando fechamos os olhos e imaginamos diálogos inteiros que curariam todos os males do mundo? A imaginação é a única que gera a Arte, que é o Amor objeto: tocável e visível. Se me perguntares o que sei sobre o coração, ou suas propriedades e características; eu responderei de peito estufado, que pouco me importa artérias e veias e vasos sanguíneos e até mesmo sangue, de nada me vale, se não houver poesia e imaginação suficientes que engrandeçam o ato de derramá-lo. A vida é Shakesperiana, mas ela também pode ser uma peça de Moliére. Basta querer e acreditar que tudo isso que se toca, não vale nem mesmo um centavo. Eu só me valido de imaginação e essa é a pobreza que mais me enriquece.

09 agosto 2009

Verde e Cinza.


Ela não pretendia chorar além do que os olhos podem suportar e além da água que possuía no corpo. O corpo sozinho e oco que carrega por esses anos que a carregam vida afora. Mas descobriu o valor imenso de se consolar com a desidratação. Descobriu que ter fugido todos esses meses das letras douradas e garrafais, não resguardou seu coração. Pelo contrário, o tornou seco e sombrio. Sabia, com todos os detalhes, que sua imagem não era mais a mesma e que já não mentia sua saúde mental com tanta sutileza. Não convencia a ninguém porque sentia as picadas eternas dos dias banais. Desta forma, merece muita palma e muito apoio por ter se prostrado à grama mexida recentemente, que serve de moradia eterna a parte amada de seu ser. Sua teoria era a de que, quando amamos alguém, esse alguém passa a ser nós mesmos. Pois o único amor que entrava no seu entendimento prático e racional era o amor-próprio. E pedaço de seu amor-próprio estava enterrado a sete palmos do chão, sem ter recebido um adeus ou o mar de lágrimas que fariam brilhar todo o verde ao seu redor. Pois a coragem, finalmente, a mobilizou. Ela, com o jeans sujo de grama, o sol queimando suas costas e seu colo, chorou por sobre o mármore bons minutos, misturados a pedidos de desculpas e promessas de eterna amizade. Limpou cada letra, ainda mais dourada com os raios solares, da poeira que a cercava. Passou a ponta dos dedos por sobre o nome ali gélido no mármore frio, como se o toque pudesse fazer ressurgir uma esperança de vida que transpassasse não só sua pele, mas seus sistemas todos, e órgãos, e tecidos, e células, e moléculas e sorrisos. Ficou ali, soluçando, sem tirar os olhos do nome adorado, perdendo a voz aos poucos, assim como as forças para criar novas lágrimas. E ficou ali também, cravada e emoldurada para quem quiser se certificar, a felicidade pueril que carregou quando criança. Pois agora, depois de tanta dor, não ousava assistir ao mundo com os olhos encharcados e manter intocável sua esperança no amanhã. Pois amanhã, ou mais tarde, se jogaria de novo em uma grama menos verde, com letras menos douradas, em um futuro muito mais cinza.

07 agosto 2009

De uma vez por todas, como gente grande.

Não sei por que nosso inconsciente resolve brincar, vez ou outra, com nossa já lúcida sensação de realidade. Porque eu estava demasiado bem, colocando você num lugar propício a todas as coisas que nos aconteceram. Você estava guardado onde o tempo abre a sua espessura, mas não nos atormenta mais. Você não me atormenta mais! Porque, afinal de contas, de ti só guardo algumas frases fugidias e promessas de para sempre. Imagino que, na época, a solidão e a banda larga me jogaram nos seus braços e nos braços do para sempre como tentativa de existência. Mas nós nos afastamos, você soube amar as novas oportunidades e eu soube julgá-las de forma que nunca amei ninguém (Talvez você, não sei ao certo).

Ontem pensei em você enquanto lia um livro do Benedetti (Não espero que saiba quem é Benedetti. Se eu te amei, não o amei pelo seu conhecimento literário). Uma personagem comparava folhas secas com cartinhas de amor. Você foi a única pessoa no mundo que já me mandou uma carta de amor, eu a tenho guardado na memória e em uma caixinha. Mas foi só isso, lembrei da sua carta, das nossas diárias cinco horas de conversa, da minha mãe atendendo os seus telefonemas e de como tudo acabou. Virei a página e solucionei mais um dia de trabalho chegando em casa.

Mas a noite chega com as razões reviradas. A cabeça no travesseiro, o sono dissolvendo meus momentos de reflexão e o sonho de uma noite inteira em que nós nos beijávamos e nos amávamos, de uma vez por todas, como gente grande. Eu acordei cansada, atordoada e furiosa. Por onde você está? Quem está amando? Quando voltará? Joga um verde de novo que eu me calo de assombro. Eu te aceito, apesar dos pesares. Não te afugento mais, mas também não te amo mais. Não poderia te amar de novo. Não me permitiria amá-lo novamente, sou tola, porém nem tanto.

Eu só sei que se você aparecer na minha frente, barbudo e sensual, como no último encontro, eu terei que te beijar e te amar, meu querido. Para acabar com o recalque do nosso nunca realizado e irrealizável para sempre, de uma vez por todas, como gente grande. E, a partir disso, me deixe em paz com os fragmentos de livro. Não quero mais lembrar de ti em histórias mais emocionantes do que a nossa. Não quero uma epopéia de você e nem mesmo um romance. Talvez um conto. Provavelmente daríamos um conto, mas não um de Benedetti. Não somos tão bons assim.

29 julho 2009

The Curious Case of Dandara Lima

"Da mesma forma, e ao longo de todos os anos de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro [...] Essas inconsequências são admiráveis, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa alí o seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanhã, ele queria tanto amanhã, quando ele próprio deveria ter se recusado inteiramente a isso. Essa revolta da carne é o absurdo."


Como afirma Camus; eu também sou carregada pelo tempo e espero ansiosamente uma curva que me obrigue a percorre-la. E, desta forma, com que relutância me vejo idêntica aos demais, que, inconsequentemente, almejam por esse inimigo que nos acorrenta ao hábito de ter fé no futuro. Que fraqueza, que ingratidão! Eu só queria aceitar essa idade sem me fazer perguntas que só deveriam revoltar a minha carne daqui a dez anos. No entanto, como odeio os anos que ainda faltam para que eu consiga, finalmente, afirmar minha juventude que fora, de alguma forma, arrancada de mim algum tempo atrás. A verdade é que eu nasci velha.

25 julho 2009

O Hábito

Se me fosse dado o dom de assistir à minha própria vida do lado de fora, provavelmente nenhuns desses desgostos jamais me ocorreriam. A não ser, certamente, que eu assim o permitisse. Mas, às cegas e com uma ingenuidade inata, mantenho-me em posição desfavorável, sem me certificar da areia movediça antes de meter os dois pés à frente do passado. Por fim, me contento a não renovar os laços da famosa escolha, que muitos dizem ser fundamental para toda e qualquer relação humana. Eu sou vencida. A escolha enfraquece e deteriora-se, até que eu não mais tenha em minha memória os motivos para a inicial aproximação. E é muito simples, uma vez que não cuidamos das nossas relações, elas tendem a desaparecer. Porque isso de vivermos em conjunto só ocorre à base de muita dedicação e paciência. De minha parte, não acho tão terrível viver trancafiada em um quarto com janela. Poderia olhar para o céu quando ele estivesse bonito e teria todo o tempo do mundo para não ser incomodada. Li em algum lugar que felicidade estava unicamente relacionada à “viver em paz”. Mas chego então a uma contrapartida, pois, uma vez que nos aceitamos frente aos olhos dos outros, e dessa experiência descobrimos a pessoa que somos, como poderíamos ser alguém se todos eles, os quais escolhemos, nos deixassem em paz? Por hábito, permaneço em silêncio, fingindo que a escolha ainda possui algum sentido. Porque se eu desse de ombros a essas escolhas, a solidão me arrancaria os adjetivos que só aprendemos em sociedade. Ser é ser percebido: não no sentido de ser notado, mas no sentido de ser tocado, de proporcionar experiências, de existir de forma singular como objeto causador de algum assombro. E cá entre nós, não acredito que alguém se assombre ao encarar o espelho, pois já nos acostumamos a nossa presença. O grande desafio é aprender sobre nós mesmos na interpretação de outrem. Pois essa interpretação é a que machuca, a que abre os olhos e as feridas do ego. Deveríamos aprender a odiar a omissão, a elisão e o eufemismo. Eu gosto de gente que me insulte com a verdade, porque é da amargura resultante que me torno mais humana: frágil e humilde. Mais eu mesma.

Em dias de tempestade eu penso na Caverna de Platão. No meu pequeno quarto com a janela mostrando o céu bonito. Um céu que eu não poderia tocar ou amaldiçoar. Mas, então, percebo a minha existência enfraquecendo e por hábito pela vida, pego o telefone e tento ir a qualquer lugar. Quando isso não funciona, eu escrevo. Ou tento.
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Is it not the choosing that makes the life we live so intricate?
Are the options we have too endless to control?
Can we oversee the offers and their demands and their goals?
Can we oversee our own needs if we do not know
What it is we really want?
Our minds, instead of our hearts
What we feel confuses our thoughts
Security, an ancient quest
Standing alone, the ultimate test
Still we search for warmth in the materialized luxuries in life
The times have changed but we are still the same
Another choice ‘cause we still don't know
- After Forever, My Choice

20 julho 2009

Globo Ocular

Era uma noite gélida, as conversas acompanhavam o vapor quente que subia como fumaça de cigarro opera sozinha. Vai de encontro ao desconhecido até que some e é carregado para o resto do mundo. Então não podemos mais vê-la, a fumaça e o vapor. Uma necessidade sombria e consciente de colocar o pé na rua antes que seja tarde demais. Do tédio, da obrigação, da segunda-feira te barganhar tudo o que há de bom nessa vida. Vamos na valsa, pisamos um no pé do outro. Sou uma negação para dançar e definitivamente não consigo ser guiada. Mas insisto no escuro, nas células mortas do ouvido que ainda te incomodam até o dia seguinte. Que é um novo dia para matar mais células ainda, ouvindo seu mundo particular nos fones velhos e encardidos. É preciso troca-los. E, com a cabeça no travesseiro projetado pela NASA, ainda penso, ainda peço durante uma hora ou duas por algo que seja significativo e que não me machuques. Algo verdadeiro, algo para acreditar. No dia seguinte me impedem de lamber minhas feridas, para não abri-las e infecciona-las. E ainda limitam o meu horizonte em movimentos mal coordenados de esquerda-direita. Meus 160° graus interrompidos por uma necessidade de pequeno-burguês de se sentir bem com todos os músculos. E meus olhos míopes e melodramáticos, haveriam de ver mais do que estavam até então preparados. Hoje eu vi um espaço vazio de globo ocular. Alguma fatalidade, de nome Pobreza. E que me preocupem todas as necroses, a “carne de minha perna” e as feridas abertas frente às telas de tevê. Nada me afetou mais do que o globo ocular vazio. É como um peito aberto onde se encontra apenas “um pulso ensangüentado”. Eu me sentei ao lado do Ciclopes.

11 julho 2009

Capacidades

Hoje me lembrei de um dia fugaz e, ao mesmo tempo, sem total importância. Eu saía da Igreja com minha avó materna – Dona Nilza, doceira de mão cheia e mineira com vontade – e ia tomar sorvete de chiclete na Almeida. Nisso se resumia meus sábados de manhã. Missa das crianças e depois o sorvete (havia dezenas de sabores, mas eu sempre escolhia o chiclete). Era o único dia que eu podia comer doce antes do almoço. Não me lembro de nenhuma característica da Igreja Padre Eustáquio, do Padre ou da missa. Mas recordo, com perfeição, da minha avó me pegar pela mão, atravessar a rua, me oferecer sorvete e me levar de volta para casa. A mim e o sorvete que logo lambuzaria todo o meu rosto de dez anos. Que já era redondo assim, mas ainda por cima possuía um sorriso “aparelhado”.

Não me preocupava em agradar Dona Nilza, porque sempre tive um espírito forte que se contentava em responder as minhas vontades, apenas. Muito me arrependo. Se pudesse prever toda essa nostalgia que me estapeia as manhãs de sábado, eu teria aceitado, de bom grado, ser evangelizada e também teria decorado todas aquelas frases do tipo “ele está no meio de nós”. No entanto, por um ímpeto de nascença, nunca houve em minha vida mínima esperança ou fé de que algo ou alguma coisa estivesse olhando por mim e acompanhando meus passos. Em bem verdade, eu nunca desejei que houvesse algo tão desocupado que perderia seu tempo medindo meus atos ou os de qualquer outro humano medíocre como eu. Eu não via necessidade física ou emocional de criar um Deus para mim e sempre me orgulhei disso.


Mas um dia me chamaram de “racional”. De um jeito grosseiro, impiedoso e profundamente sincero. Colocaram minha capacidade de amar em prova e isso me alarmou. Naquele dia, eu olhei para o céu que é divinamente bonito nos fins de tarde de Brasília e pensei que poderia haver algo ali. Por um momento pensei em minha avó e na fé desesperada que ela tinha em Deus e na capacidade que esse Deus tinha de melhorar nossas vidas. Eu olhei para o céu e fiquei esperando por essa capacidade. Mas o sol me cegou e eu me senti tragicômica. Porque faz exatamente seis anos que não tomo sorvete de chiclete. E então eu sorri, para a minha avó, para o meu sorvete e para a certeza que, mesmo racional assim, não existe ninguém nesse mundo que seja mais capaz de amar do que eu.

30 junho 2009

Samba de Orly

Eu queria escrever sobre qualquer coisa, mas isso é mais complicado do que escrever sobre um assunto específico. Pois o “qualquer coisa” leva diferentes nomes de acordo com a particularidade de cada um. Particularidade é uma palavra bonita para designar “desgraça pessoal”. Minha desgraça pessoal tem muitos poréns, porque no fundo eu sou feliz de um jeito irritante. Porque entre a felicidade irritante e a minha particularidade, eu prefiro comprar problemas e me envolver com eles. A gente só se envolve com o que compra e só te oferecem coisas para comprar depois que compreendem a imagem que você vende. Viver é isso: troca-troca, sem eufemismos safados. Quando parecemos dispostos, encontramos pessoas dispostas e algo sobre “estar aberta”, sem eufemismos safados mesmo, e um papo de universo conspirando que ouvimos por aí. Tudo besteira, completa e absoluta besteira. Coisa de gente otimista - como me irritam. Porque um dia, por mais disposta, aberta e afim de troca-troca que você esteja, te jogam “qualquer coisa” na cara e o que te sobra é fugir. Acaba sendo melhor viver sua particularidade do que soma-la ao dos outros. E esse egoísmo é o meu punctum, meu “qualquer coisa” de hoje.

21 junho 2009

E nem o céu é belo e prateado

E queremos fugir
Mas ficamos sempre sem saber
Seu olhar
Não conta mais histórias
Não brota o fruto e nem a flor
E nem o céu é belo e prateado
E o que eu era eu não sou mais
E não tenho nada pra lembrar


E a vida segue o seu curso, como havia de ser, como esperávamos que seria. Porque ninguém aqui ainda possui sonhos que sejam grandes e esperançosos. Não sonhamos mais. Não acreditamos em conto de fadas. Não choramos nus debaixo da água morna que jorra nossos problemas pro ralo que todo dia precisa ser limpo, devido à quantidade de cabelos. Devido à quantidade de anos que fazem nossos cabelos caírem e, para alguns, devido à quantidade de química também. E nós precisamos de mais química em nossos corpos que já não se saciam encostados um no outro, porque é tanta merda em todo o lugar que é repulsivo dividir bactérias. É repulsivo dividir nossos problemas, é também egoísmo e hipocrisia, porque ninguém deseja nos ouvir. A todo ouvidos, de peito aberto. Ninguém mais tem o peito aberto. Somente por causa das feridas, mas jamais por inocência. Não há inocência, não há companheirismo. Há drogas, sexo e música mal feita, em todo canto do mundo. E alguém um dia te ensina que o verbo “haver”, no sentido de “existir”, não se coloca no plural; que pronome não inicia frase; que não se pode viver apenas de partícula apassivadora. Mas nós erramos tudo e continuamos errando. Continuamos vivendo de poréns, de talvezes e, às vezes, de “nunca mais”. E nos colocando primeiro de todos, e existindo e havendo da forma errada. Somos errados. Nascemos errados. É engraçado que as coisas terminem e que continuemos estáticos sem sentir a dor que tal rompimento deveria gerar. É engraçado não sentir dor e nomear isso de auto-suficiência. É engraçado como os nossos dentes se encostam nos dentes de quem não deveríamos beijar. E como dentes se repelem, se arranham e também nos machucam nas noites de fúria. É engraçado como os dentes sempre acompanham todo o resto, e como todo o resto é sempre incompleto e irritante. E “todo o resto” não nos ensina a querer “todo o tempo” e nós apenas aprendemos, por fim, a sentir raiva de qualquer envolvimento com “todo o resto”, “todo o tempo”.

E eu me encantei por uma estúpida calça vermelha, por um telefonema interurbano, por um par de all stars, por um chocolate com avelã, por batata frita de sorriso, por outro idioma, por alargadores fedorentos, por bunda-lê-lê, por uma carta mal escrita, por quedas em brinquedos, por cigarros de palha, por noites na piscina, por comodismo e distração. Mas existe bissexualismo, loiras acéfalas, fones-de-ouvido, melhores amigos, hábitos burgueses, gaúchas anti-sociais, messenger, outra cidade, outro país, isqueiros azuis, a capacidade de gerar filhos, infantilidade, e palavras que me fazem acreditar que tudo não passava de um doce Suspiro. Coloca-se na boca e em pouco tempo derrete. Sobra-te o gosto de açucar, mas depois tudo volta ao normal e o que te resta, são calorias. São ilusões. Reflexos. Espectros. Memórias. E o Amanhã imponente.

13 junho 2009

Nefasta, é você?

O tempo é assim, não tem dó e nem piedade. Não há muito o que se possa fazer contra ele e contra a sua maravilhosa ou maldita necessidade de mudar o universo ao nosso redor. Existe o tempo e nós o vemos pela televisão amarela, como estátuas caseiras, “namoradeiras” que mais parecem armação do satanás. Nós nos enfeitiçamos de tempos em tempos, para que o mesmo reapareça magnânimo exigindo a mudança que ele faz tanta questão de gerar. E , em um dia absurdamente frio, alguém inventou que mudanças vem para o bem. Quem o fez vivia se esquentando em fogo de palha, coitado. Mas o ditado pegou e as pessoas se aferram a acreditar que o tempo é melhor do que salão de beleza. Eu, ferrenhamente, discordo. A mudança de cortar os cabelos e as unhas enquanto se lê Caras e como vai a gravidez da boneca inflável que é casada com o Roberto (Ricardo?) Justus é muito mais bem vinda, para mim, do que ver meus amigos se separando uns dos outros e do que costumavam ser. E o desespero de ler sobre a chantagem que Bahuan tem feito contra Maia gera mais elevação espiritual do que não conseguir afirmar se eu mesma mudei como eles, imbecis, fizeram. Porque o que eu sentia na cidade, o cheiro e a vivacidade de pão-de-queijo e gente “bacana”, acabou se transformando em smog (aprendi essa palavra hoje fazendo cruzadas no nível cobrão) e lembranças de um cotidiano que se faria impossível, devido ao tempo que passou e os trens que vão acabar sumindo do meu vocabulário. Porque os trens, e os pães-de-queijo, e as bacanices, e aquela antiga sensação de liberdade pode até nunca ter existido se eu conseguir entender, finalmente, que também era do tipo que se esquentava com fogo de palha. Tenho medo de ter sido a figura nefasta que inventou que mudanças vem para o bem, mas hoje, eu sei, é bem provável que elas venham se não para o bem, ao menos para a continuação dos tempos, e sejam quase tão importantes quanto as mudanças que pagamos com cartão de crédito no salão de beleza.
"Ou seja. As coisas que amei nunca existiram. Os pequenos entraves, os desvãos e esquecimentos, as palavras em si com qualquer significado besta, me são mais úteis. O que sempre tive comigo foi uma certa sensibilidade visionária, megalomaníaca, melendicente e colorida dos acontecimentos que me impus, não me serviram e não me servem objetivamente pra porra nenhuma, ao contrário..."
- Marcelo Mirisola. O azul do filho morto.

06 junho 2009

Brinco com o amanhã.



Por adiar todas as coisas, me vejo incapacitada de realizar o que é meu por direito e destino. Porque eu brinco com o amanhã. Porque acredito em Caetano quando ele afirma que “os melhores tempos estão por vir” e de melhores tempos eu só tenho os que ainda não conheci. Porque eu me rastejo pelas expectativas e jamais pela coisa completa, tocada, encaixada no meu corpo e desejo de humana. Porque eu sei ser tudo, menos o que se espera de mim e nem eu mesma entendo a dimensão de viver feito espectro, de não estar em ninguém e em lugar nenhum, e de não poder ser encontrada nem pelos meus mais perfeitos confidentes. Porque os faço acreditar na minha presença de corpo e alma, e eles me sentem como igual, enquanto estou a milhas e milhas de distância em afinidades e vontade de permanência.

É um dom ouvir conversas alheias em mesas de bar e como elas sempre levam a uma razão única e universal, já que toda conversa acaba quando uma das partes desiste de seus argumentos e aceita ouvir sem mais ressalvas. A vida é tal e qual uma noite embriagada, falamos e agimos em demasia, mas voltamos à sanidade sem querer e entender de fato nada do que se passou. Porque a sanidade não tem a ver com os argumentos que aceitamos como certos, ou com as ressalvas que deixamos para depois. A minha sanidade concorda apenas com minha imensa vontade de permanecer espectro e que todas as noites embriagadas não ditem a pessoa que sou. Porque quaisquer argumentos só são suficientemente bons quando eles concordam com os meus. Porque quaisquer pessoas só são suficientemente boas quando conseguem calar minhas ressalvas. E é desse paradoxo que brinco com o amanhã. Queimando a ponta da língua e escondendo pingentes de coroa.

04 junho 2009

Para Viver


"Muitas vezes te disse que antes de fazê-lo havia que pensá-lo muito bem, que esta nossa união lhe fazia falta carne e desejo também, que não bastava que me entendesse e que morresse por mim, que não bastava que em meus fracassos eu me refugiasse em ti. E agora, vês o que passou, ao fim nasceu, ao passar dos anos, o tremendo cansaço que provoco em ti e ainda que seja penoso, tenho que dizer. De minha parte esperava que um dia o tempo se fizesse cargo do fim, se assim não houvera sido eu seguiria brincando de te fazer feliz, e ainda que o canto seja amargo, pensa nos anos que tens para viver, que minha dor não é menor e o pior é que já não posso sentir. E agora tratar de conquistar com vão afã este tempo perdido que nos deixa vencidos sem poder conhecer, isso que chamam amor para viver. Para viver."
(Pablo Milanés)
Existem coisas que nós lemos mas parece mais que elas lêem a gente.

02 junho 2009

O rabo de Simone.

"As vestais de Simone de Beauvoir protestaram porque o Nouvel Obs publicou uma foto dela nua (de costas). O rabo de Simone exibido na capa de uma revista «intelectual» seria a prova de que o machismo continua impante. E a «objectificação» significa obviamente menosprezo. Disparates. A exibição da nudez de Simone faz sentido no contexto da sua reivindicação da liberdade sexual. O nu não é obsceno e não tira dignidade a ninguém, especialmente tratando-se de um rabo vulgar de Lineu. É estranho que progressistas tenham reacções de puritanos. A nudez de Beauvoir faz sentido no contexto do seu combate, que passou em grande medida pela escolha dos seus prazeres. É duvidoso que a fotografia adiante alguma coisa, mas não é totalmente gratuita. Há quem pergunte porque não se expõe o rabo, digamos, de Levinas (supondo que foi fotografado); mas Levinas escreveu sobre temas talmúdicos, entre os quais não consta o rabo. No fundo, as vestais não aceitam que a «reivindicação do corpo» feita por Beauvoir leve à objectificação do corpo. Mas toda a libertação sexual é uma objectificação. O rabo de Simone parece insultuoso porque ecoa a frase javarda de Mauriac sobre O Segundo Sexo: «Maintenant, je sais tout sur le vagin de votre patronne». Mas quem quer ser adulto na discussão de vida sexual tem que ser adulto na tolerância à javardice. "





Considerações:


1) Será que, após Simone, nós, as mocinhas, podemos usar a palavra "rabo" no nosso vocabulário ou ela é tão ofensiva quanto "pau"?
2) Será que os "progressistas com reações puritanas" se incomodariam com os sarcamos que eu, mocinha, sou capaz de criar?
3) Será que a sociedade se importa mesmo com o que eu, mera mocinha, digo ou deixo em entrelinhas no meu blog?
4) Será que devo calar-me ou apoiar o "rabo" de Simone?








E assim disse Simone:
"Querer ser livre é também querer livres os outros".

01 junho 2009

Do ego, um desabafo.


É uma pena que, para mim, o grandioso alheio pareça tão pequenino. Sortudos vocês que se convencem da validez disso que chamam de vida, ou de amor, ou de amizade. E que me entendam, eu também sou feliz - com o pé no chão de dar o nome correto a cada coisa. Desconfio dos sorrisos em demasia, ou do jeito carinhoso que amantes se tratam, ou de palavras que me fazem ouvir. Eu desconfio de vocês todos e de todos os relacionamentos do mundo. É dessa suspeita que me saio bem tanto nos dias alegres como nos lamentáveis. Não há nada que me surpreenda e há nada devo explicações. Pretendo continuar assim, independente do que digam, ou das transformações que aconteçam, ou do fim dos tempos e aquela bobagem toda que passa no History Chanel.

As duas personagens que existem em mim formam um alguém mais preparado do que esse com a experiência de quase meio século de vida que você é. Orgulho-me e me lamento todos os dias por ser quem és e amar quem amas, da forma como amas. As duas que existem em mim entram em sintonia quando decidem, juntas, a deixar a vida tomar o curso que deva tomar: a sua e a dos outros, pois a minha vai bem, obrigada. Respeito as culturas que cultivam o conhecimento dos mais velhos, mas respeito ainda mais a cultura de hoje, que entende que o vazio da era pós-industrial e a solidão do mundo midiático transformou os mais sábios em pessoas com carências afetivas e existenciais. É assim que te enxergo sem diminuir nem um pouco o respeito que sinto por ti. Só gostaria que entendesse que seu trabalho em mim acabou, já não ouço mais as suas preocupações como se elas devessem ditar a pessoa que sou, pois elas não me impedem de fazer absolutamente nada. Contra isso, não há o que fazer. Da ambigüidade que existe em minha personalidade, nasceu um ser humilde, solidário e feliz, porém desconfiado, independente e orgulhoso.

E isso é tudo. Não há o que temer. Não sou uma suicida em potencial, não terei uma overdose por vazio ideológico, não me excluo da sociedade. Pelo contrário, acho mesmo que a sociedade precisa de mais pessoas como eu e dessa modéstia nasce minha sede de vida, de conhecimento, de ultrapassar a divindade, de transformar mentes e comportamentos. Eu acredito em mim e no meu potencial acima de todas as coisas e acredito mesmo que o mundo deveria girar ao meu redor, pois esse é o único sentido certo para ele. Deixe que o mundo me convença de que eu preciso das palavras hostis, mas seja solidário as minhas certezas juvenis, sem imposições. Eu te conto tudo, quando eu quiser contar.


31 maio 2009

Página 222.



Por que a felicidade faz cócegas em quem não se acostuma com ela?

29 maio 2009

Sou de Gêmeos.

Eu fui acusada de ser geminiana demais. Em um ato falho fiz cumprir tal acusação. É verdade, se hoje estou bem, é fato que amanhã não vou estar da mesma forma. “Risco tremendo se envolver com geminianos” – ela disse – e eu concordo. Outro aspecto negativo: não sei lidar com perdas e ganhos. Ou ganho, ou ganho. Não há a escolha de participar. Por isso me jogo nos abismos quando ouço um não como esse último. E os abismos podem ser profundos ou apenas o ócio. Pode saber que o ócio machuca mais do que o suicídio, certeza que sim. Porque morrer é fácil, mas esperar pela morte, é para os que sentem dor derradeira e de derradeiro eu só tenho a dor, de um dia sim, um dia não. O resto que existe em mim é pura ilusão. É engraçado que as pessoas tenham o poder de me negar coisas, quase uma piada e eu, taciturna, deixo de ouvi-los e me tranco em certezas, pois foda-se a todos eles. Os amo demais, claro! Mas não o suficiente para levá-los em conta mais do que a mim mesma. Não sei quando, só sei que aprendi a me defender me obedecendo e escondendo os meus lamentos. Mas um dia, hei de estourar, e serei uma geminiana com ascendente em Áries, que irá jogar na cara de cada um, da forma mais cruel possível, o desprezo que sinto pelos penachos de todos eles e por eles em si. Para que eles entendam que cada engano, cada descuido, cada frieza, cada resposta negativa está muito bem guardada na minha memória que não tem fim. Eu me lembro de tudo, queridos e um dia vou lembrá-los também. Aguardem.


Eu não acredito em signos, mas o meu me é tão familiar que preciso gostar dele ou não gostaria de mim mesma.

19 maio 2009

Beleza é proteína

As Capitus de hoje em dia assim são. Escondem suas fortunas com mania de engrandecimento. Mal sabem elas que não se trata de dissimulação, tão vulgares que são não sabem o significado de tal palavra. O medo das Capitus é deveras maior do que as de antigamente, já não sabem ser caladas e obedecidas. Não existe mais tamanho mistério por volta de suas índoles, sabemos de antemão que quase nada elas valem. Tentamos fortemente combater a essa previsão, mas o apocalipse é completo, porque ninguém presta. Os presenteados entre as pernas e também as Capitus, de nada servem. Somos todos tão tolos. As Capitus com suas vergonhas travestidas em libertação feminina. A libertação feminina nos traz consternação em frente a todas as coisas do mundo. Tudo é sujo e pouco sabemos sobre a sujeira aceitável. Fazemos-nos vitoriosas, mas não encontramos um contraponto, um equilíbrio, uma forma saudável de se ser mulher. Quando abrimos nossas fortunas para todos os presenteados nos trancafiamos na imagem barata que aquela tal Bíblia inventou para nós e de misteriosas passamos a meras figuras coadjuvantes, enganadas por uma simples cobra. Sendo, pelo contrário, as cobras que rastejam por nós. Quando fazemos o contrário e supervalorizamos o que temos a oferecer perdemos o valor de mercado e até mesmo os Bentinhos perdem por nós o T Zão. Não por não sermos atraentes, bem pelo contrário, mas por estarmos a fora do entendimento que eles, rastejantes, são capazes de alcançar. E então não existem os duos gregos, não adianta mitos de andrógenos e nem mesmo Freud com toda aquela teoria de safadeza consegue explicar essa mania que todos têm por solteirice ou essa escapatória que os Bentinhos inventam de criar “relacionamentos” deveras inúteis.

Não adianta Pausânias e Banquetes de Platão. O amor não deveria ser uma troca entre duas Companhias. Não quero conhecimento, ou sexo, ou dinheiro, ou conforto em troca de “devoção”. Também não quero alguém que me complete, prefiro ser incompleta e permanecer humana. Humana e frágil, como os deuses gregos nos condenaram a ser. Porque beleza é proteína, o resto é cultural. Valide-se pelo conteúdo, querida Capitu.


[...]

"É dessa fraqueza que nasce a suspeita. Uma suspeita que se manifesta na famosa definição de Capitu como oblíqua e dissimulada, por causa dos seus olhos de ressaca: «Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, como uma vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca». Bento vê-se arrastado por essa força, e depois disso é o ciúme (e não o enigma) o protagonista da história. «Quem é Capitu?» é questão que na verdade já não se põe, porque Capitu é apenas um espectro."

15 maio 2009

Há tanto o que aprender.

E como que a bebida é capaz de combater os males do mundo de sobremaneira? Como que embriagados vencemos os nossos medos e de ressaca dormimos os dias ensolarados e quando a noite chega, os meus seios permanecem em suas mãos? Como não transpiro o seu cheiro se é por ti que todas as minhas glândulas funcionam? E como pude acordar de desvario tão bom?

Você chegava e se apoiava na parede. Só me olhava, sem dizer nada. Condizente com sua fama de brutinho e eu esquecia minha indiferença. Em um impulso eu cheirava a sua nuca, passava a ponta do meu nariz por sua face, beijava seu lóbulo alargado, infiltrava com os meus dedos a sua camisa e eles iam te conhecendo sem nenhum receio. E eles sempre se surpreendiam, pois havia, todas às vezes, algo novo a ser explorado. E, impunemente, você me tomava um beijo. E quando queria me calar, você me tomava o mesmo beijo, me fazendo esquecer dos meus motivos para ir embora, te largar. Durante esse tempo não houve carona, amigo, abrigo que nos atrapalhasse. Deixava-me em troca de goles de vodka com gelo e limão. De onde venho, chama-se caipirinha, mas a sua era sempre sem açúcar. Voltava com os olhos vidrados de desejo e um cigarro amassado amarelando as mãos. Mãos que seguravam o meu rosto, me imobilizavam e me faziam tremer. Eu te aceitava de volta em nome das tremedeiras e também porquê, para quem gosta, perdão é entre-pernas. Você se fazia vitorioso e ria das minhas pernas descontroladas. E quando eu explicava todas as minhas vontades você se assustava com os meus sonhos pro amanhã. Mas era tanta vontade de você. Vontade que me fazia esquecer de mim, da mídia, dos livros, da fome e das guerras. Vontade de apenas permanecer ali, fitando o meu e o seu umbigo.

Você não deu o devido valor e não compreendeu o meu não. Tanta prepotência. Não me toque mais, sim? Não quero mais descansar meus pensamentos nos beijos que me dedicou sem querer estar comigo. Se não é capaz de desculpar minhas vinganças, não seja vil até romper meus dias claros. Sexo é o vício da sua insegurança. Outra coisa, sua mãe é uma puta. Falei.

Acordei e os meus minutos pensam nas tremedeiras. Queria que tudo fosse verdade, inclusive você e o meu querer.

13 maio 2009

P***A

Eu poderia rechear de palavrões um relato simples. Eu sei usar palavrões. Os burgueses usam palavrões, eles fingem que não, mas eles usam e acham isso moderno. As moças peidam e de realidade em realidade, nada mais existe além dos palavrões. Não cheguei a essa limitação de verbetes por ninguém e, que eu saiba, não a provoquei em ninguém. Assim espero. Quero ser, para sempre, uma figura de linguagem. Como uma metáfora do Gabriel, qualquer uma. Inconfundível e gostosa como “Doce de goiaba”. Não quero ouvir falar de mongolóides que comiam o “ranho um do outro”. Não estou pronta pro mundo. Pro “traficante que faz sinal da cruz em frente à Igreja”. E queria mesmo morrer de câncer ao invés de morrer de amor. E me queimar com cigarros fedorentos e deixar as marcas que não são externas para quem tem olhos desatentos. Cortar os pulsos ou a orelha. Pintar em folhas de ouro, fazer da minha vida uma arte. Beijar marinheiros no final de uma guerra, ser fotografada por isso. Passear com sapatilhas vermelhas por tijolos eternamente amarelos. Ter um filho para dar a exata educação que recebi. Entender o porquê de o céu ser azul e o mar também. Transar com um gênio e me sentir diva de uma obra. Queria ter coragem para explicar todo o meu medo. Hoje o céu estava violeta e as nuvens estavam vermelhas. Eu queria chorar. Não chorei até agora. Eu queria te ter e não saber de você, ao mesmo tempo. Que você me odiasse e que visse em mim os defeitos que desempenho tão bem. Eu queria usar um palavrão na sua frente e ter coragem de desafiar o nosso encontro. Mas não estou pronta pro mundo. Porra, eu te quero tão bem que eu quero chorar porque eu não sei querer e sei que não me faço entender. Perdi minhas vírgulas, novamente.

Ponto (Palavrão).

05 maio 2009

Desculpa (in)formal.

Eu queria ser recíproca. É tão bonito quando as pessoas aprendem a ser duas ao mesmo tempo. Eu queria entrar devagar na vida de alguém que mire à janela todas as noites e sinta a neblina desenhando formas de mulher no vidro gelado. Queria um alguém que esperasse por mim, só por mim e não por qualquer sujeita que ocupe decentemente um lugar; seja ele no peito, na cama ou no ego. Eu queria não ter um ego de combate, para poder me encaixar no caos alheio, esquecer de mim por um tempo. Queria saber descrever um romance sem precisar usar referências que são muito mais interessantes do que as palavras que costumo utilizar. Mas o costume é tão vulgar, mesquinho e vergonhoso, que me acostumei a querer muito e fazer pouco.

Realizo-me na solidão e tenho plena certeza quando invoco o meu sofrer, porque esses calafrios não chegam nem perto do que espero de um amor. Amor é um só, é o que sentimos por nós mesmos e por aqueles que de tão nossos fazem parte de nós. E os que se foram, os que aqui ainda estão e os que aparecerão nesses anos mais próximos estarão perto demais da minha meninice para tornarem-se “o meu amor”. Provável que eu os decepcione, os traia, os abandone, os negligencie, os magoe e desde já peço desculpas. Mas como posso me redimir? Estamos todos procurando por um sentido e o meu é delimitado demais para continuar realizando a felicidade dos outros ao invés da minha.

Eu queria ser recíproca, mas, previamente, afirmo que é cedo demais.

04 maio 2009

Ceguei-me.

Inundada de perguntas. Afobada, bem calada, um pouco bêbada, com dores nos ombros e a voz tão mudada. Dia desses nós fomos a um bar bem bonito. Não bebi nada, o que certamente já contraria minha rotina e minha rota de finais de semana. A iluminação foi planejada para que as cores transmitissem sensações diferentes diante de tantas pessoas que coincidentemente cultivam o álcool. Já se passaram quatro anos desde os enganos do começo do ensino médio. Eu era tão mais magra. Mais certa, mais viva, mais farta de risadas e bons modos. Era uma boa amiga, boa filha, boa amante. Não me colocava no topo de nada e me jogava na frente do perigo por tantas pessoas. Hoje eu não me aventuro nem por mim mesma e pelo visto, você também não. Talvez tenham sido os países por onde você passou que transformaram você em uma pessoa com quatro sentidos. Falta-te tato, querida. Talvez tenha sido o meu ócio que me transformou em uma pessoa com seis sentidos. Falta-me espontaneidade, querida. Eu prevejo o fim de tudo, o desgaste, a queda, a comodidade, porque me pergunto demais.

Conheci pessoas que provavelmente nunca passariam pela minha vida. Na verdade, a capital do Brasil é uma cidade bastante segregada e nós estamos destinados a conhecer sempre um estereótipo, pois aqui água e areia nem sequer tentam se misturar. Não sei lidar com essas histórias internacionais, cheias de árabes milionários e chalés perto da esfinge do Egito. Adianta ir a Barcelona e não conhecer o museu do Dalí? Porque me parece perda de tempo e o tempo, ele é precioso. Pergunte-me sobre o tempo que te explicarei a relação que os Egípcios faziam com a relatividade que na época nem sequer possuía um nome, que dirá um conceito. Mas você não pergunta e se acha esperta demais.

E então conversei com a moça do cabelo curto que tinha uma inteligência estampada na cara. Falamos sobre Filosofia e bem, ela me disse coisa certeira que nem fez escala antes de me encher de emoção.

“Eu sei que não posso encontrar as respostas de tudo, mas eu preciso aprender a viver sem essas respostas ou vou para sempre adiar a felicidade”. E essa se tornou, a partir de então, a meta principal da minha vida. Antes que essa inundação de perguntas transborde de vez. Não quero mais as respostas, pois foi tão ruim descobrir certas coisas, que aprendi que a realidade nunca é igual ao que esperamos dela e a maturidade só chega quando nos tornamos leves. Leves na enchente de perguntas e vazios do peso da falta de respostas.

Viver as cegas é para quem pode.

29 abril 2009

É tempo de barrigudas.

Permito, pois, que reserves a mim todas as críticas. Mas jamais, e eu digo jamais nesse sentido folgado que jamais possa ter, poderá reclamar de que não fui amiga o suficiente ou que não te dei espaço para acompanhar essas mudanças que ocorrem dentro de mim. Pois mudanças ocorrem sempre, nós nos rebaixamos à elas apenas se quisermos. Se eu mudar, quero você ao meu lado, e se você não conseguir entender a dimensão de tudo isso, é melhor mesmo que você perca a imagem de mim que você carrega em você. Assim, poderemos construir uma nova imagem, que deixe claro que o tempo nos muda, mas que juntas podemos mudar o tempo.

Continue aqui que eu te mostro que a beleza de conversar sem palavras permanece entre nós e sempre permanecerá. Não acredito que com você a lei do “tudo passa” fará algum sentido. Eu não poderia passar por nada, nem ninguém, nem momento sem você. Sou viciada em você. Continue aqui que eu vou corrigi-la, com aquele meu jeito. Pois não são ipês que você tem admirado, são “barrigudas”. São árvores parecidas, porém, não são iguais. O tempo de ipês já passou, mas o nosso não passará nunca. Continue aqui que passaremos por ipês e barrigudas, todos os anos, construindo novas imagens de nós duas e carregando, guardado no peito, a mesma impressão de beber cerveja pela primeira vez. Continue aqui que nós passamos por essa fase, querida.

23 abril 2009

Everybody's Gotta Learn Sometimes.

Na encruzilhada, de novo. Em que todas as coisas se repetem e continuamos sem sair do lugar, esperando sabe-se lá por qual demônio que carregue nossas dúvidas de uma só vez, sem esquecer da troca de nossa alma por algo mais valioso do que esse viver meia-boca. Tenho, nesse momento, algumas possibilidades pelas quais esperei pelo ano passado inteiro. O ano passado foi o ano com menos essência que já me ocorreu e ainda assim, eu sobrevivi a ele. Ocorre-me que sobreviverei a esse também e aos próximos que virão, se essa for mesmo a minha vontade. Ou não. E esse ano que começou tão mal, que não possuía nenhuma aposta de minha parte, que não representava esperanças, tem se demonstrado cada vez mais solidário as desgraças de Janeiro. Faz com que me sinta completa, se isso é possível para algum ser humano. E ser humano que sou, sinto-me quase completa.


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O Globalizado me agrada em demasia, de um jeito viçoso e rico de sensações. Sentir saudades dele faz com que dores apareçam em lugares inimaginados no meu corpo. Lugares que ninguém nunca sentiu; lugares que nunca tentei tocar. E o Globalizado o toca, facilmente e cada dia mais. Com todo o mistério e os livros de psicanálise, socialismo latino-americano, ficção científica e viva Perón! Eu o amo e o amo, eu. E de tanto amor eu me traio com as declarações vomitadas e as conversas mal planejadas. O Globalizado totalizante e universal em todas as partículas que podem existir dentro da felicidade. E só de saber que ele existe eu já não me sinto tão só. Porque ele existe e logo, para tudo há um motivo.

Achei digno que ele me presenteasse com uma caneta azul, eu estou cada vez mais minimalista e não coloro mais o meu caderno. A simplicidade de uma boa caneta azul me faz muita falta e eu gostei tanto de poder escrever o nome dele com a caneta que ele me deu. Ele guarda com ele uma libélula que foi minha durante muito, muito tempo! As libélulas comem seus pares após procriarem, assim como as viúvas negras. Eu me identificava muito com elas até outro dia, quando eu me encantei pela forma como ele se encantou por mim. Eu não sei se o meu cheiro é bom, mas ele gosta e fico tão triste quando não consigo corresponder as expectativas que ele demonstra ter. Mas o quero tanto comigo, pelo eterno momento que um “por enquanto” pode significar. Porque, “por enquanto” ele me faz tão verdadeiramente feliz que olhá-lo com tédio em uma aula inútil já é gostoso que só. Como a bunda boa que ele tem que eu pretendo pegar muitas mais vezes. Gostoso que só.

Existe um mineiro que tem um sorriso engraçado e que ri muito de mim. Ele ri de mim e comigo. Ele ri bastante. O sorriso dele é tão risível, que eu sorrio muito também. Ele me acha paradoxal, ou algo como “moderna estando fora da moda”. Nós discordamos de muita coisa, quase tudo, ao que parece. Entre ideologias e formas de interpretar uma mesma música. Nossas músicas preferidas são as mesmas, mas nós as encaramos de formas diferentes. Assim como interpretamos esse governo de formas opostas e somos diferentes também na maneira como tratamos essa nossa distância, esse nosso depois. E ele é meu amigo. Por que me abro com ele rápido e o espanto (espanto mesmo?) com o meu jeito de conversar sobre esses tabus pós-modernos. Mas ele conversa sobre tudo comigo. E eu gosto muito dele, até quando ele me questiona e acha absurdas as minhas estórias de doze anos. E eu me defendo, mas gosto tanto quando ele me indaga e me chama de paradoxal. Como já disse, gosto muito de palavras com X e gosto muito dele.

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Eu me sinto gostada e “gostante”. Mas, sabe? Sem pressões e necessidades emocionais. O que ficar, ficou. O que passar, passarinho passou. Pois, o que há de mudar na minha vontade de viver ou não? Na significação do mundo, do sexo e do trabalho? No máximo, novas consciências de novas Dandaras irão me varar as madrugadas. Eu encaro o risco, pelo breve momento de viver o que está aqui e agora, sem peripécias e planos pro amanhã.