"Há quem diga que o diabo faz campana nas encruzilhadas, em busca de desavisados para sugerir tentações e os persuadir.
Já haviam se passado das dez da noite e na pequena televisão do bar transmitia-se um jogo qualquer de futebol. A televisão pequena, posta em um canto acima de um empilhado de engradados vazios, estava repleta de chuviscos e ruídos que só atraiam a atenção de poucos, quase ninguém - Não que pudesse atrair a atenção de muitos, já que, o público presente não ultrapassava dez. Eis que, as atenções, quase inexistentes, se voltam para um homem que implorava ao dono do estabelecimento uma cerveja fiada. O proprietário relutava e o pedinte gritava promessas de paga-lo, no máximo, em dois dias.
O dono, além de dono, era garçom, faxineiro, bedel e caixa, talvez até mesmo psicólogo, nunca se sabe. E pela freqüência quase religiosa de seus clientes fiéis, todos os presentes sabiam que ali, no comando, estava um homem avarento – Murrinha, mão de vaca, sovina, como preferirem. O inesperado então passou desapercebido aos olhos de dois (dos quatro que ainda acompanhavam a súplica alcoólica, em tom de mendigância). O exato momento em que uma sombra de complacência, quase angelical, tomou, por poucos segundos, o rosto daquele dono de bar. Olhou-o silenciosamente de cima a baixo e lhe permitiu uma cerveja fiada, como o carrasco que ouve o último pedido de sua vitima, mas só uma.
-Se ele fosse um maltrapilho, vestido em pano de saco e cinzas, o pedido de fiado não teria sido contemplado, não com a mesma misericórdia.
Existem penas e penas. Temos pena de meninos e homens de rua, sujos, que passam fome, que dormem nas calçadas e se cobrem com papelão. Mas nem sempre damos atenção a isso por pensar que aquela é, e sempre foi, sua condição irrevogável. Temos uma pena diferente quando vemos engravatados moribundos que se arrastam pelas paredes e não conseguem se manter em pé nem para pedir um copo de cachaça. Ao vê-los, nasce uma pergunta natural: “O que foi que os aconteceu?”. Ao vermos a quebra do paradigma social, para pior, nos enxergamos alí... E sentimos uma complacência maior, por medo.
O dono do triunfo da cerveja fiada era um homem de meia idade, com rugas e poros bem abertos. Calças e sapatos sociais, camisa rosa-claro e uma gravata com cores combinadas (que os modistas condenariam sem pensar duas vezes) que ele já não usava como recomendaria o bom figurino... Pois fizera dela um cachecol, um lenço que vivia caindo no chão em suas falas mais exaltadas – que eram muitas. Tinha cabelos lisos, um tanto oleosos, que não cobriam nem metade de sua testa grande. Seus olhos eram pequenos, mas estavam, na maioria do tempo, arregalados – Fazia parte de sua gesticulação natural. O nariz grosso com uma ponta fina o conferia uma certa harmonia, ainda que bizarra, com a boca larga que alternava bicos e mordidas labiais com acenos de cabeça. Parecia que, em tempos pretéritos, ele havia sido vaidoso. E que as desmazelas de sua aparência atual eram herança dos vícios e da escancarada loucura que estampara seu rosto e alma.
Adquirida a dádiva sublime da cerveja concedida aquele homem resolvera, como todo bom bêbado, chato e perturbador, pedir para se sentar com as únicas duas moças presentes no bar. E as duas, como não costumavam ser rudes a quem quer que fosse, permitiram a ousadia. Para impressiona-las com seu conhecimento o homem fazia comparações entre elas e celebridades pouco famosas. Ao ver que o entusiasmo era quase nulo, pediu a palavra dizendo-lhes que tinha algo muito importante a dizer sobre a vida, e disse:
- Quem sobe batendo, desce apanhando.
A primeira moça o olhou e acenou como se concordasse, embora a vontade que tinha fosse de gargalhar, pois sempre achara graça de frases feitas e senso comum.
-Eu pesava 140 kilos e sabe o que eu fiz? Duas palavras: Alcachofra Composta! Uma após cada refeição e continue comendo o que quiser tranqüilamente...O peso vai saindo, saindo, saindo.
Deu uma pausa e olhou pra baixo, fitando a gravata caída no chão...
-Eu vejo que vocês duas são pessoas muito inteligentes, jovens. Se apeguem a fé, ou a deus, ou ao diabo...Existe sombra sem luz? Me diz, existe sombra sem luz? Eu sou o diabo, vocês sabiam? Eu sou o diabo...
As duas moças, já despidas de simpatia, se entreolhavam com ares de quem acaba de ser ofendido. Talvez pela sugestão de um produto emagrecedor milagroso – Elas não precisavam daquilo. Talvez pela sugestão de deus, diabo e apego – Elas também não precisavam daquilo. O dono do bar olhava de longe toda aquela cena, como um pastor que cuida de suas ovelhas. Apesar da avareza já citada, era um bom comerciante. Sabia que clientes satisfeitos acabam sempre voltando. Notou que, de certa forma, aquele homem que se intitulara o demônio incomodava as garotas. E como um pai superprotetor, vez ou outra, interrompia a conversa para perguntar se o homem as incomodava. Elas diziam que não, pois não tinham coragem para dizer o contrário – Remeto, mais uma vez, a teoria da pena.
As falácias sobre sua origem diabólica prosseguiam e o homem mostrava-se cada vez mais atordoado. Seu discurso se embolava em diversas crenças e testemunhos de uma vida, que parecia, torpe.
- Eu já vivi demais e por isso não falo da juventude. Sou casado há muito tempo e minha mulher já não se importa mais. Não tenho filhos, mas quero ter. Se deus nos fez a sua imagem e semelhança ele deve ser muito louco. Pensem assim ó, como deus que levou um tempão pra criar isso tudo. Eu posso ser quem eu quiser, eu sou o diabo! Me apego na sombra, porque não existe sombra sem luz. Eu vejo que você é clarividente – Disse olhando para a primeira garota e dizendo mais uma vez
– Pensa, se deus criou isso tudo...Você consegue pensar nisso?
E a primeira moça, já sem muita paciência, responde:
-Mas...Eu não acredito em deus.
-E no diabo, você acredita?
-Também não.
A segunda moça, menos tímida e mais inteligente, se intromete de repente:
- Deus e o diabo não existem porque são representações humanas.
E antes mesmo que terminasse a frase, ele sussurou:
- Desde que te vi, gostei de você...Você é uma intelectual, tem um grande entendimento da vida, lê muitos livros, mas eu... Eu sou só diabo.
Dito isso, levantou-se com uma grande convicção de si mesmo, de saber ser quem dizia que era, mesmo que não fosse. Tamanha certeza trazia consigo uma coisa estranha no ar, um pouco mística e um tanto folclórica. Ele transformaria céticas em crédulas por alguns instantes, se o olhassem com profundidade nos olhos? Se as perguntassem, negariam. Porque nem a maior autoconfiança do mundo o poupava dos tropeços e da falta de equilíbrio ao andar – É que a fisiologia está acima da maioria das convicções racionais.
Superado os dilemas e todos os minutos, o diabo se retirou. Arrastando a garrafa fiada, completamente seca, e sumindo pela porta, em direção as ruas já vazias, como o ator principal que ao fechar das cortinas, despe-se do personagem e pode se transfigurar em um homem somente, carnal. Não mais procurando uma encruzilhada ou uma mesa de bar."
Porque relato bem contado a gente republica.Obrigada amiga, por estar sempre comigo- mesmo no dia de conhecer o Diabo.