10 setembro 2009

O Homem Macaco

A coisa mais triste do mundo é quando pessoas escolarizadas preferem permanecer na ignorância. Algo está errado para seguir tal anomalia de consciência. Sinto-me ferida, como se essa fosse uma necrose também na história da humanidade. Por outro lado, não possuo forças para discutir com os cegos de coração ou pior, os surdos que não ouvem os ecos, os gritos, as fúrias da sociedade desigual. E minha mortália me agoniza. O mundo permanece, enquanto bate a porta o meu suicídio social. A cada novo passo um pavor maior me domina. A descrença desvia meu sopro de luz, amaldiçoo o tempo e me obrigo a uma infertilidade forçada. Habitar esse mundo é o maior castigo, em tempo que a vida é adorável em inumeráveis particularidades. Não resta muito aos que odeiam a passividade, temem a morte e amam a vida, a não ser o desprezo. É um desprezo tão grande que altera a condição de existência. É um desprezo tão grande que descolore as relações humanas, como uma alergia sufocante e mortal.
O engraçado, o temoroso, o sádico é que tais pessoas conseguem ser amadas, de forma que o fruto de suas ignorâncias também é plantado em outros, talvez mais passivos e provavelmente mais indiferentes. E como uma epidemia, a ignorância cria sua morada, esparrama-se por entre os que ainda possuiam alguma reflexão. E eu, finalmente vencida, sou condenada a cruz eterna de viver entre os homens sem pensamentos.

"Estão assim até hoje nossas bandeiras.
O povo as bordou com sua ternura,
coseu os trapos com seu sofrimento.
Cravou a estrela com sua mão ardente.
E cortou, da camisa ou do céu,
o azul para a estrela da pátria.
O vermelho, gota a gota, ia nascendo."
- Neruda