
É verdade que do coração sei pouca coisa. Como também é verdade meu vergonhoso desconhecimento sobre todos os outros órgãos humanos. Afora, claro, a imaginação. Porque, depois de todas as páginas e anos (e o fato de eu ser única entre os irmãos que nunca tive), o órgão que mais utilizei e que me salvou das mais cruéis tempestades foi a imaginação (e por ser tão vital a nomeio de órgão). Não estou tentando sugerir que possuo algum dom, não. Em bem verdade, o que quero dizer, mas não consigo, é que, talvez, a imaginação te dê motivos para continuar. Comigo sempre funcionou. E quando a minha não me bastava, eu me munia da imaginação alheia. É o único órgão que é divisível, sem nunca, jamais, diminuir seu quociente. Porque você divide e isso te engrandece. Tal e qual o fígado, a imaginação se reconstitui. Por isso, sempre existirá uma personagem, ou um diálogo, ou uma tomada, ou um fragmento, ou um arranjo que completará tua existência de tal forma que parecerá estranho ter vivido anos sem experimentar tal resolução. Trata-se de se sentir vivo e completo, mais uma vez, ainda que por um momento.

E que me perdoe todo esse sentimentalismo, mas acho mesmo que tudo se relaciona ao amor. Vive quem ama ou caso contrário, padece por dentro. O amor nunca conseguirá ser tão colorido quanto na imaginação dos homens. Porque o amor, que é vital a todos os órgãos, só se deixa ser saudável na imaginação. Acaso em outro lugar ele poderia ser eterno e imortal, como quando fechamos os olhos e imaginamos diálogos inteiros que curariam todos os males do mundo? A imaginação é a única que gera a Arte, que é o Amor objeto: tocável e visível. Se me perguntares o que sei sobre o coração, ou suas propriedades e características; eu responderei de peito estufado, que pouco me importa artérias e veias e vasos sanguíneos e até mesmo sangue, de nada me vale, se não houver poesia e imaginação suficientes que engrandeçam o ato de derramá-lo. A vida é Shakesperiana, mas ela também pode ser uma peça de Moliére. Basta querer e acreditar que tudo isso que se toca, não vale nem mesmo um centavo. Eu só me valido de imaginação e essa é a pobreza que mais me enriquece.