07 agosto 2009

De uma vez por todas, como gente grande.

Não sei por que nosso inconsciente resolve brincar, vez ou outra, com nossa já lúcida sensação de realidade. Porque eu estava demasiado bem, colocando você num lugar propício a todas as coisas que nos aconteceram. Você estava guardado onde o tempo abre a sua espessura, mas não nos atormenta mais. Você não me atormenta mais! Porque, afinal de contas, de ti só guardo algumas frases fugidias e promessas de para sempre. Imagino que, na época, a solidão e a banda larga me jogaram nos seus braços e nos braços do para sempre como tentativa de existência. Mas nós nos afastamos, você soube amar as novas oportunidades e eu soube julgá-las de forma que nunca amei ninguém (Talvez você, não sei ao certo).

Ontem pensei em você enquanto lia um livro do Benedetti (Não espero que saiba quem é Benedetti. Se eu te amei, não o amei pelo seu conhecimento literário). Uma personagem comparava folhas secas com cartinhas de amor. Você foi a única pessoa no mundo que já me mandou uma carta de amor, eu a tenho guardado na memória e em uma caixinha. Mas foi só isso, lembrei da sua carta, das nossas diárias cinco horas de conversa, da minha mãe atendendo os seus telefonemas e de como tudo acabou. Virei a página e solucionei mais um dia de trabalho chegando em casa.

Mas a noite chega com as razões reviradas. A cabeça no travesseiro, o sono dissolvendo meus momentos de reflexão e o sonho de uma noite inteira em que nós nos beijávamos e nos amávamos, de uma vez por todas, como gente grande. Eu acordei cansada, atordoada e furiosa. Por onde você está? Quem está amando? Quando voltará? Joga um verde de novo que eu me calo de assombro. Eu te aceito, apesar dos pesares. Não te afugento mais, mas também não te amo mais. Não poderia te amar de novo. Não me permitiria amá-lo novamente, sou tola, porém nem tanto.

Eu só sei que se você aparecer na minha frente, barbudo e sensual, como no último encontro, eu terei que te beijar e te amar, meu querido. Para acabar com o recalque do nosso nunca realizado e irrealizável para sempre, de uma vez por todas, como gente grande. E, a partir disso, me deixe em paz com os fragmentos de livro. Não quero mais lembrar de ti em histórias mais emocionantes do que a nossa. Não quero uma epopéia de você e nem mesmo um romance. Talvez um conto. Provavelmente daríamos um conto, mas não um de Benedetti. Não somos tão bons assim.