Nos calamos todos. Matamos os sonhos de se embrenhar no serviço público a favor do povo, do nosso povo. Não fazemos mais parte do povo, temos nojo dele. E são sonhos fugidios que abandonarão, também, a geração de amanhã. Toda aquela necessidade de voz gritada, de bandeira arqueada, de sociedade justa não passava de contexto histórico. As desculpas mudaram, usamos drogas por outros motivos e transamos para esquecer de nós mesmos. Usamos as pessoas para outros fins, odiamos o mundo e vivemos nessa revolta, conscientes da importância fugaz de arriscar a vida em roleta russa. Ou de apenas viver a vida em roleta russa. E há o salto que não saltamos como há o discurso que não discursamos. Padecemos em ignorância, em ócio, em silêncio. A impossibilidade coerente de abandonar a apelação. E o deus que todos amam, se omite a favor da hierarquia. O povo nojento permanece anônimo e as cadeiras do congresso estão preenchidas dos anônimos de anteontem, que já não fedem mais. “Meu campo”, diz Goethe, “é o tempo” e essa é a palavra absurda de quem espera a eternidade irrisória.
Eu só espero não morrer de cansaço.