Na encruzilhada, de novo. Em que todas as coisas se repetem e continuamos sem sair do lugar, esperando sabe-se lá por qual demônio que carregue nossas dúvidas de uma só vez, sem esquecer da troca de nossa alma por algo mais valioso do que esse viver meia-boca. Tenho, nesse momento, algumas possibilidades pelas quais esperei pelo ano passado inteiro. O ano passado foi o ano com menos essência que já me ocorreu e ainda assim, eu sobrevivi a ele. Ocorre-me que sobreviverei a esse também e aos próximos que virão, se essa for mesmo a minha vontade. Ou não. E esse ano que começou tão mal, que não possuía nenhuma aposta de minha parte, que não representava esperanças, tem se demonstrado cada vez mais solidário as desgraças de Janeiro. Faz com que me sinta completa, se isso é possível para algum ser humano. E ser humano que sou, sinto-me quase completa.

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O Globalizado me agrada em demasia, de um jeito viçoso e rico de sensações. Sentir saudades dele faz com que dores apareçam em lugares inimaginados no meu corpo. Lugares que ninguém nunca sentiu; lugares que nunca tentei tocar. E o Globalizado o toca, facilmente e cada dia mais. Com todo o mistério e os livros de psicanálise, socialismo latino-americano, ficção científica e viva Perón! Eu o amo e o amo, eu. E de tanto amor eu me traio com as declarações vomitadas e as conversas mal planejadas. O Globalizado totalizante e universal em todas as partículas que podem existir dentro da felicidade. E só de saber que ele existe eu já não me sinto tão só. Porque ele existe e logo, para tudo há um motivo.
Achei digno que ele me presenteasse com uma caneta azul, eu estou cada vez mais minimalista e não coloro mais o meu caderno. A simplicidade de uma boa caneta azul me faz muita falta e eu gostei tanto de poder escrever o nome dele com a caneta que ele me deu. Ele guarda com ele uma libélula que foi minha durante muito, muito tempo! As libélulas comem seus pares após procriarem, assim como as viúvas negras. Eu me identificava muito com elas até outro dia, quando eu me encantei pela forma como ele se encantou por mim. Eu não sei se o meu cheiro é bom, mas ele gosta e fico tão triste quando não consigo corresponder as expectativas que ele demonstra ter. Mas o quero tanto comigo, pelo eterno momento que um “por enquanto” pode significar. Porque, “por enquanto” ele me faz tão verdadeiramente feliz que olhá-lo com tédio em uma aula inútil já é gostoso que só. Como a bunda boa que ele tem que eu pretendo pegar muitas mais vezes. Gostoso que só.
Existe um mineiro que tem um sorriso engraçado e que ri muito de mim. Ele ri de mim e comigo. Ele ri bastante. O sorriso dele é tão risível, que eu sorrio muito também. Ele me acha paradoxal, ou algo como “moderna estando fora da moda”. Nós discordamos de muita coisa, quase tudo, ao que parece. Entre ideologias e formas de interpretar uma mesma música. Nossas músicas preferidas são as mesmas, mas nós as encaramos de formas diferentes. Assim como interpretamos esse governo de formas opostas e somos diferentes também na maneira como tratamos essa nossa distância, esse nosso depois. E ele é meu amigo. Por que me abro com ele rápido e o espanto (espanto mesmo?) com o meu jeito de conversar sobre esses tabus pós-modernos. Mas ele conversa sobre tudo comigo. E eu gosto muito dele, até quando ele me questiona e acha absurdas as minhas estórias de doze anos. E eu me defendo, mas gosto tanto quando ele me indaga e me chama de paradoxal. Como já disse, gosto muito de palavras com X e gosto muito dele.
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Eu me sinto gostada e “gostante”. Mas, sabe? Sem pressões e necessidades emocionais. O que ficar, ficou. O que passar, passarinho passou. Pois, o que há de mudar na minha vontade de viver ou não? Na significação do mundo, do sexo e do trabalho? No máximo, novas consciências de novas Dandaras irão me varar as madrugadas. Eu encaro o risco, pelo breve momento de viver o que está aqui e agora, sem peripécias e planos pro amanhã.