Eu apalpei meus lados, primeiro reconhecendo terreno e depois dando tapinhas sutis nos ombros, como se a vontade dos dedos pudesse afastar a solidão forçada ou os pensamentos desejosos. Não tentaria te explicar as construções suplicantes de Gaudí e nem mesmo o amor perdido quando pronunciou as palavras finais que andam a vagar por uma Barcelona embaçada (eu ia te explicar a modernidade da minha Brasília límpida). A verdade é que poderia me chamar de covarde mas não doeria mais do que a repulsa que já sinto por minhas frases não ditas. Seu barco em linha reta por todos os caminhos que te afastam de mim e também por entre as pernas de outra que talvez não sejam tão macias e confortáveis como as minhas seriam. O que não posso provar e por isso, é apenas uma suposição vaga: essa de que minha vontade é tão involuntária e suprema que todo o meu corpo pensaria ser melhor se fosse dado a ele a chance de te reconfortar. Caso contrário, para nada ele serve, a não ser se permitir glorioso nas noites de imaginação. Meu corpo estremece, ressentido, só de pensar na possibilidade de tal inutilidade ser comprovada. Mas quando a fúria reprime o calafrio, percebo o engano de nós dois, que pensamos tão diferente sobre esse específico assunto. Em oposição a você, penso que a vida não é curta e, em oposição a Pessoa, navegar não é preciso. A vida é a única chance de jogar à maré sua bússola e perder-se infinitas vezes, mais até do que Ulisses. Navegar sem rumo, à deriva, e talvez encontrar mais aventuras do que o necessário. Mais longevidade do que o premeditado e mais pernas, e mais línguas e mais barcos. E definitivamente, não fincar sua âncora em Barcelona. Não a deixe enferrujar, é sempre hora de partir. Porque é preciso navegar, mas de forma imprecisa (até chegar a mim).