08 maio 2011

Oh, minha mágoa

Sentia-se apertada. Desconfortável. A situação foi piorando até que era difícil para ela, até mesmo, respirar. Não havia espaço para todos os sonhos. Inflava o peito a procura do oxigênio que não vinha. Foi diminuindo, tão cheia de capacidades, diminuindo. Nunca mais cresceria e seria grandiosa novamente. Nunca mais.

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Tenta batalhar, diariamente, com a lembrança cruel dos melhores tempos. Os que passaram, pois já não confia nos que virão e não confiar é um novo status. Tenta sobreviver nessa nova realidade escorregadia, sem respeitar a si e aqueles que ama. Escorregando. De mês em mês, lhe é esfregado na cara a insensatez do mundo. O desmanche das coisas belas, em ferro velho. Os paparicos e souvenires, à venda, expostos como sucata. As frases sutis, os olhares de lado. Pisados, escarrados e sujos. Como marido bêbado encontrado na porta do botequim. E bebe essa amargura, e maltrata seus amores, e esconde seus medos e sofre, em silêncio, sofre. “Rir ainda consegue”, dizem. “Aprendeu a disfarçar”, respondem.

Há dias, entretanto, que permite certos sonhos. Não são maravilhados e desconcertantes, não dão tesão e nem provocam suspiros. Para todos os efeitos ainda são sonhos. Modestos, é o que se permite. Nesses dias, ela se sente melhor, sorri de dente em dente, cantarola as músicas que a ninavam na infância, faz poesias em guardanapos, toma cafés com bastante açúcar, encontra pessoas aparentemente magníficas, usa vestidos estampados e joga os cabelos para um lado e para o outro, acompanhando o compasso dos quadris.

O mundo sente-se esperançoso: Oh, criatura vil que só enxerga em mim as mazelas. Oh, minha mágoa. Há, afinal esperanças para que me ame?

Esperança, pensa sempre Pandora, que falácia dos Deuses, que ultraje essa tal esperança.