Não é que eu tenha mudado (de novo), é só que o mundo se expandiu um pouco mais. Isso é uma metáfora, obviamente. Passo todo o meu tempo procurando por aquilo que não pode ser nomeado. Nomear é compreender e eu prefiro o incerto. Portanto acredito que a meta é o inominável.
Enquanto ele não chega, vou me atarefando com o dia a dia, aos poucos e quanto mais amadora melhor. Isso não significa, entretanto, que não me ponho a pensar, nos horários de folga, como seria um eterno feriado, por entre seus morros que não são os de onde vim, mas malharam minhas panturrilhas de igual maneira. Ainda, o quente do seu sol, que faz questão de esquentar os seus, do morro, do asfalto e de terras distantes. Nasce para todos. Ou talvez seu cheiro inconfundível, experiente com seus 450 anos de ocidente e ainda aqueles anos magníficos de tupi-guarani, os quais não são informados às crianças no tempo de ensino fundamental ou regular, a depender da sua geração. Saber que você existe aconchega um pouco mais meu coração. Lembrar que existe um local onde as pessoas trabalham, e estudam, e se planejam para o vestibular, para o batente, ora, como seria diferente? Mas que, ainda assim, tiram o tempo para desperdiçar todos os dentes, a cada bom dia, boa tarde, já é noite. Aceita um cigarro? Uma cerveja?
Gente que ri, que é de Rio que todo boêmio precisa.
Que gastura me dá que a cor que me deste está a desbotar de minha pele a cada banho e suspiro e respirar sujo dessa poeira que aqui há demais. E ninguém há de me julgar, se um dia me cansar de me bronzear no escritório e assistir o pôr do sol pelas câmeras do Detran. Ninguém há de lamentar pois quando for para fugir, a todos depois atestarei minha felicidade, longe de poeira e de classe média desvairada. Isso eu garanto. Porque se acaso necessitar de outra carona em carro policial, que seja para encher meus pulmões do seu cheiro de salitre e não mais arrancá-los do meu paladar. Porque cheiro é sabor e o teu, um dia, será diariamente meu também. Não o documente ainda, porque a essa coragem ainda há de me servir também o desgastar inevitável dos minutos, das horas, dos dias e anos, por fim. Se não for a tua orla, que ninguém diga que não tentei. Mas que há um mundo inteiro para o inominável habitar e minha procura começa onde há gente que mais me fez sorrir em muito tempo. Mais do que minha própria gente. Gente que me põe a fazer as coisas que antes eu não me aventurava.
Gente que samba, que é de Bamba que toda falsa-baiana precisa.