Quando o Amor junta-se à Sociologia...
“Odo Marquard falou, não necessariamente com ironia, do parentesco etimológico entre zwei e Zweifel (‘dois’ e ‘dúvida’) e insinuou que o elo entre essas palavras vai além da simples aliteração. Onde há dois não há certeza. E quando o outro é reconhecido como um ‘segundo’ plenamente independente, soberano – e não uma simples extensão, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim, o primeiro – a incerteza é reconhecida e aceita. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.
Franz Kafka observou que somos duplamente distintos de Deus. Tendo comido da árvore do bem e do mal, nós nos distinguimos Dele, enquanto o fato de não termos comida da árvore da vida O distingue de nós. Ele (a eternidade, na qual se abraçam todos os seres e seus feitos, em que tudo que pode ser é, e tudo que pode acontecer acontece) está próximo de nós. Fadado a permanecer secreto – eternamente além de nossa compreensão. Mas sabemos disso, o que não nos permite ter sossego. Desde a fracassada tentativa de erigir a Torre de Babel, não podemos deixar de tentar e errar e fracassar e tentar novamente.
Tentar o quê? Rejeitar essa distinção, rejeitar a negação do direito aos frutos da árvore da vida. Prosseguir tentando e fracassar nas tentativas é humano, demasiadamente humano. Se a alteridade é, segundo Levinas, o derradeiro mistério, o absolutamente desconhecido e o totalmente impenetrável, isso não pode ser uma ofensa e um desafio – precisamente por ser divino: barrando o acesso, negando o ingresso, inatingível e eternamente além do nosso alcance. Mas (como Rozenberg insiste em nos lembrar) ‘o limitado não pode ser alcançado por meio da organização... As coisas mais elevadas não podem ser planejadas. Imediatez é tudo para elas.’
Imediatez para quê? ‘O discurso é amarrado ao tempo e por ele nutrido... Não sabe de antemão onde vai terminar. Segue o exemplo de outros. De fato, vive em virtude da vida de outro... Na conversa real, alguma coisa acontece’. Rosenweig explica quem é esse ‘outro’, por cuja vida vive o discurso de modo a que alguma coisa possa acontecer na conversa: esse outro ‘é sempre um alguém bem definido’ que não tem ‘apenas ouvidos, como todo mundo, mas também uma boca’.
É exatamente isso que faz o amor: destaca um outro de ‘todo mundo’, e por meio desse ato remodela ‘um’ outro transformando-o num ‘alguém bem definido’, dotado de uma boca que se pode ouvir e com quem é possível conversar de modo a que alguma coisa seja capaz de acontecer.
E o que seria essa ‘alguma coisa’? Amar significa manter a resposta pendente ou evitar fazer a pergunta. Transformar um outro num alguém definido significa tornar indefinido o futuro. Significa concordar com a indefinibilidade do futuro. Concordar com uma vida vivida, da concepção ao desaparecimento, no único local reservado aos seres humanos: aquela vaga extensão entre a finitude de seus feitos e a infinidade de seus objetivos e conseqüências.”
Em Amor Líquido, Bauman.
(foto Annette Pehrsson)
