23 setembro 2008

Duas páginas e meia.

Ela se arrumou. Escolheu a roupa com horas de antecedência, combinou a lingerie, passou creme de rosas, secou o cabelo, penteou a sobrancelha, se maquiou sem frescura. Ganhou a rua com o passo incerto, cambaleando entre o que pensava e como iria dizer. Sabia que esse era o dia para abrir o coração só não sabia se teria coragem, ousadia.

A chance de encontrá-lo era maior do que a chance de se magoar. A chance de ser feliz a possuía como nunca antes. Andava cansada. Cansada de escrever sobre fracassos, cansada de fechar portas, janelas, desligar telefones e trancafiar seus próprios sonhos.

Passou a tarde ensaiando seu discurso. O espelho até o decorou. Ele que por tantas vezes a viu enxugar as próprias lágrimas, a pentear os cabelos sem expressão, a passar cremes caros na pele perfeita. Ele que se perguntado, responderia: “Não, não existe ninguém mais bonita do que você. Nem nesse e nem em nenhum outro reino”.

É fácil conquistar o afeto de um espelho que só sabe enxergar a ela. Difícil é reconquistar o afeto de quem já se foi. De homem-orgulho, de homem-incerteza, de homem-segredo. No entanto ela foi pra rua depositando sua sorte e sua saúde no poder que a nostalgia tem. “Os velhos tempos podem voltar e podem ser melhor do que esse tempo de agora”, ela diria.

Chegada à hora. Lá estava ele, escondido entre outros que a cumprimentaram primeiro. Chegada a sua vez, não houve magia. Tocaram-se. Afastaram-se. Ninguém notou. Estavam vazios de palavras, mas cheios de intenção. Quando os goles compridos em copos de desespero desfizeram por completo a mulher que ela pensava ser, quis ir embora. Sua coragem se esvaiu. Aproveitou a primeira carona e fugiu. Sem despedidas e sem declarações. Sem sapatos, sem refúgios, sem meias-palavras em sua memória. Abriu as portas, as janelas, as lamentações e desperdiçou essas páginas que aqui se encontram. Entre lágrimas derramadas e copos de vinho tinto.

( Amanhã é um novo dia para essa mesma conquista )