Peço por um vício que possa ser meu. Uma religião que não seja vil. E nem careta. E nem extremista. E nem maniqueísta. Que combine com o abismo que há a minha volta. Que me faça morrer levemente. Não quero morrer de amor. Ou de dor. Ou outro sentimento que eu não posso tocar. Quero definhar por escolha minha. Não quero viver após a morte, ao menos ela TEM de me envolver, para todo o sempre. Mas nada me serve, nada cabe, nada me traz essa calmaria.
Pensei em me virar como se viram os adultos. Ser significativa em alguma coisa ou a alguém. Não consegui. Ninguém vê em mim uma vírgula de poesia. Nenhuma droga me altera. Nenhum ato me engrandece. Eu me despedacei por dentro, sem ao menos conhecer o que seria o amor.
Não amo mais, não posso. Não sei mais como se pronuncia o afeto, como se toca o afeto? E sofro. E choro. E grito, sempre em silêncio. Não é para me ouvirem.
Meus pais, esperança e cuidado. Alimentaram-me, me abençoaram e me amaldiçoaram a esse inoportuno viver. Recompensas à parte, o fizeram por egoísmo. Porque ninguém consegue viver solitário para sempre, isso quando se consegue viver. Quando já não completavam o vazio um do outro me trouxeram ao mundo e junto a mim a discórdia e junto a discórdia o tempo a passar. Vês? Somos fruto, maldito o vosso ventre, de sentimentos mesquinhos. Terrenos demais.
Procriaram, sim. Sem pensar nas conseqüências de tamanha vulgaridade. Mas não é culpa deles. Eles se adaptaram, assim como nós faremos. Não está escrito na bíblia que o bonito é viver? Viver e fazer vida, ou alguma coisa assim. Fim para mim. Agnóstico o caralho, e pro caralho esse maldito deus, com d minúsculo. Fim para ele. Fim para os criadores, todos!