20 março 2008

O discurso de Pausânias.

(...) Todas as ações, com efeito, não são em si mesmas, em sua pura realização, nem boas nem más; e sirva de exemplo o que agora nos encontramos entretidos a fazer: beber, cantar e falar. Nada disto, tomado de modo absoluto, é belo - mas depende da maneira pela qual se atualiza esta atividade para que se torne tal. Bela é a ação correta e boa; feia, é aquela que é incorreta. O mesmo podemos estender ao amor, dizendo que nem todo Eros é em si mesmo belo e louvável, mas se torna belo e louvável unicamente quando nos encaminha para um amor que é belo e louvável.
(...) Uma Afrodite é verdadeiramente vulgar e se realiza como que por acaso; e é o amor com que os homens inferiores amam.
Estes, com efeito, amam antes de tudo as mulheres e também mancebos; amam mais o corpo do que o espírito e, enfim, amam com o maior desvario que podem, dirigidos tão-somente pela concupiscência.
Portanto, não é de se espantar que daí resultem efeitos que dependem do acaso, e que às vezes são bons, e às vezes são maus.
(...) Afrodite celeste: não participa do feminino, mas unicamente do masculino, e por isso é o amor dos mancebos. É o amor da deusa mais velha, e por isso não se excede na concupiscência, e é por esta razão que seus adeptos preferem o sexo masculino e nele amam o que por sua natureza é mais forte, mais inteligente.
Os característicos dos servidores deste amor reconhecem-se facilmente. Eles amam, não crianças, mas adolescentes em que a inteligência começa a despontar, isto é, aqueles aos quais a barba começa a apontar.
A meu ver, os que assim precedem têm a intenção de conviver a vida toda com os seus amados e nunca ludibriam os rapazes conquistados por fáceis seduções, abandonando-os por outros, deles zombando ou menosprezando. A própria lei deveria encarregar-se de proibir que se amassem crianças, pois assim se impediria que se gastassem esforços excessivos na obtenção de coisa incerta, como são os meninos, nos quais não se pode prever o desenvolvimento dos vícios e das virtudes, tanto do corpo como do espírito.
Bem sabemos que os bons a si mesmos impõem uma tal lei, mas o mesmo não acontece com os amantes vulgares, que deveriam ser obrigados a respeitá-la, assim como já os obrigamos a não amarem mulheres livres.
Foram esses amores vulgares que tornaram desonesto o amor, e são dessa forma causa de que muitas pessoas tenham a coragem de dizer que é feio conceder favores aos amantes.
Essas pessoas afirmam isso tendo em vista a inconveniência e a imoralidade com que esses homens vulgares amam, quando é evidente que esse amor, quando é moral, não pode de nenhuma forma ser objeto de repreensão.
Com facilidade se pode compreender a opinião que em outros Estados reina a respeito do amor, e sua definição simples. Entre nós porém, e em Esparta, a coisa se torna complexa. Na Élida, e na Beócia, e em outras regiões onde o povo não sabe falar, todos consideram simplesmente como belo concederem-se favores aos amantes, e pessoa alguma, seja moço, seja velho, incrimina tal ação como desonesta. Creio que a razão de tal simplificação está em que todos por lá procuram dessa forma eliminar as dificuldades que poderiam surgir na conquista dos adolescentes, nascidas da incapacidade em que se encontram de falar e persuadir.
Ao contrário, na Jônia e em muitas outras regiões onde os gregos vivem sob a soberania dos bárbaros, temerosos da estabilidade de suas monarquias despóticas, consideram o amor entre os homens como imoral, e do mesmo modo a filosofia e a educação física. A razão disto é, creio eu, que aos tiranos, não favorece a eclosão de grandes espíritos entre os seus súditos, nem de amizades sólidas, nem de associações coesas - realidades estas que o amor cria.
(...) É pois visível que, nos Estados em que é vergonhoso conceder favores aos que nos amam, esta severidade decorra da iniqüidade daqueles que a estabeleceram, da tirania dos governantes e da covardia dos governados. E que, nos países em que isso parece bem, que essa indulgência é prova de grosseria. Tudo isso é bem melhor regulado na nossa terra.
Com efeito, se levarmos em conta que, segundo a opinião geral, é mais belo amar publicamente do que às escondidas, e principalmente aos adolescentes mais gentis e mais virtuosos, embora menos belos do que os outros; que os amantes recebem de todos encorajamento entusiástico; que é honroso triunfar no amor, e vergonhoso nele fracassar; que a própria opinião pública permite e concorda em que o amante realize as ações mais extravagantes com o fito de cativar o seu bem-amado, ações que lhe acarretariam as maiores repreensões se fossem realizadas com outra finalidade - como, por exemplo, se um homem qualquer, com o intuito de obter dinheiro, ou um cargo de magistrado, ou outro cargo político, consentisse em fazer tudo que fazem os amantes para seus amados, isto é, suplicar como mendigos, fazer juramentos fervorosos, deitar-se a porta das casas, rebaixar-se a um servilismo que repugnaria até um escravo -, tal homem haveria de ser impedido em suas ações, tanto pelos amigos como pelos inimigos, uns exprobrando-lhe as adulações e baixezas; outros repreendendo-o e envergonhando-se de seus atos. Ao passo que aos amantes são permitidas todas essas extravagâncias, não vendo nisso a comum opinião motivo algum de vergonha. E, o que é pior de tudo isso, segundo um ditado popular, só aos juramentos de amor, permitem os deuses que sejam impunemente quebrados, pois juras de amor não são juramentos - o que prova que tanto os deuses, como os homens, e como a própria opinião pública daqui, concedem todas as licenças aos amantes. Se considerarmos todas essas coisas, concluiremos que, em nossa cidade, bela e admirável coisa é amar e ser amado!
(...) Creio da seguinte forma: O amor não é simples, e como já nos disse no início as coisas em si mesmas não são nem boas nem más, mas boas se tornam quando feitas de bom modo, e más, no caso contrário. O que é feio é conceder favores a um mau e por maus motivos; e bom, a um bom, com bons motivos.
Mau, com efeito, é o amante vulgar que prefere o corpo ao espírito, pois o seu amor não é duradouro por não se dirigir a um objeto que perdure. A flor do corpo que ama vem um dia a murchar - e então ele “se retira ligeiro como as asas” esquecendo-se das declarações e muitas juras que fez.
O contrário, porém, acontece com aquele que ama uma bela alma e permanece a vida toda fiel a um objeto duradouro. Por isso a opinião pública distingue entre uma coisa e outra, e dispensa favores a uns, mas evita concedê-los a outros. Anima a uns a que prossigam e a outros a que se esquivem; em tudo procurando sempre a qual das duas espécies pertencem o amante e o amado.
E daí vem igualmente parecer à opinião vergonhosa uma entrega imediata: ela deseja que se dê tempo ao tempo, pois conhece o bom critério que o tempo proporciona. Além disso, considera-se feio entregar-se alguém ao dinheiro ou ao poder político, seja porque não seja capaz de mostrar-se mais forte do que as seduções exercidas pelo dinheiro ou pelas brilhantes posições. Este modo de pensar vem de que nada disso oferece segurança e durabilidade, e muito menos ocasião para a eclosão de um nobre amor.
(...) É sentimento comum entre nós não ser vergonhoso e humilhante alguém se entregar a outrem porque espera graças a ele realizar progressos no caminho da sabedoria ou de outra qualquer parte da virtude.
Essas duas opiniões sobre amor dos jovens e sobre filosofia e demais virtudes devem encontrar-se reunidas, para que se possa ter como bom e inatacável o fato de o amado conceder favores ao amante.
Quando o amante e o amado concordariam em ter por lei, um, prestar ao amado todos os serviços que não firam a virtude, e o outro, servir em tudo o que não se opunha à justiça e ajuda-lo a tornar-se sábio e bom; um, capaz de proporcionar a sabedoria e todas as outras virtudes, o outro, desejoso de ciência e virtudes - quando, pois, essas condições se encontra e harmonizam, só então não é desonesto que se concedam favores a um amante. De outro modo, não!
(...) Donde podemos concluir que é perfeitamente honroso entregar-se em nome da virtude. Este é o Eros da Afrodite celeste. É extraordinariamente benéfico tanto para os indivíduos como para o próprio Estado, pois impele ao mesmo tempo amante e amado a procurarem incansavelmente a virtude e sabedoria.
Platão, em seu Banquete.