Certa vez um certo alguém, não-me-pergunte-quem, me disse que o cheiro de chuva que pensávamos ser de mato molhado, era nada mais nada menos o cheiro das bactérias presentes nos fungos que ficam grudados no chão de lugares úmidos. Não sei se acredito, só posso dizer o vazio que aquilo trouxe para dentro de mim. Quantas coisas mais eu amo sem saber que são, de fato, bactérias?
Lembro de quando descobri que as nuvens não eram de algodão-doce e lembro que perguntei: "se elas não são doces, por que as pessoas insistem em querer voar?" Ninguém nunca nem se quer tentou responder. E depois, quando descobri que o Papai Noel era meu tio mal disfarçado e que o video-game caríssimo estava sendo pago em muitas prestações pelos meus pais, vieram os Garotos Podres, com o seu "Papai Noel, filho da puta, rejeita os miseráveis, eu quero matá-lo, aquele porco capitalista." Descobri que nada é para sempre, que não se podia esperar das pessoas o mesmo que se faria por elas, que deveria tomar cuidado com as palavras, porque à elas não havia perdão. E então eu envelheci, envelheci para descobrir que o cheiro que eu amava eram bactérias tomando banho e que as goteiras não eram para ser divertidas e sim um retrato cruel de realidade.
Hoje eu dormi pensando em um alguém que ainda acredita em para sempre, com cheiro de bactérias entrando pela janela e com uma goteira fazendo sinfonia bem perto da minha cama. E sabe do que mais? Eu dormi verdadeiramente bem.