06 janeiro 2009

O texto sem fim.

Ninguém sabe falar sobre a morte, amenizá-la, torná-la banal.

Nos primeiros cinco dias do ano, eu perdi duas pessoas que amo muito. "Amo", pois ainda não os deixei partir e eles ainda não partiram de mim. Sinto dor pelo sangue de meu sangue derramado, alagando a cozinha de cabeça para baixo, passando pelo vão da porta, tornando o fim cada vez mais real. Eu não tinha medo de nada, mas agora tenho medo de morrer assim, devagar, aos poucos, sentindo os segundos restantes, os milésimos de segundos. Morrer só. Sinto dor por aquela que escolhi amar, que fazia parte de todos os meus planos de 2009 e dos anos que o seguissem, que batizaria meu filho ou me chamaria para batizar um dela e o dela viria primeiro, e o dela seria mais educado do que o meu, porque ela sempre foi a mais fina, a mais arrumada, a mais encantadora de nós duas. Nós possuíamos um futuro em comum, enquanto sangue de meu sangue compartilhava comigo o mesmo passado.

Lembro-me dos Natais em que eu dormia antes da ceia. Eu odiava bêbados, eles quebravam meus brinquedos, faziam minha avó chorar e eu me exilava no meu quarto. Resumindo, há muito alcool no meu sangue e no sangue do meu sangue e isso sempre foi assim. Uma vez, às três horas da manhã, passaram um trote pra minha casa dizendo que meu tio havia sido sequestrado. Minha avó, na época muito viva, quase desmaiou e aquilo me preocupou. Acreditei e tive medo pela dor que senti na voz, que vi no olho dela. A verdade é que a dor dos outros me atinge, talvez ainda mais que a minha própria. Eu fugi das lágrimas que encontraria em casa para encontrar as lágrimas de Belo Horizonte e agora tudo esta se somando dentro de mim.



Passei vinte e quatro horas em um cemitério velando um corpo que já não possuía o meu tio. Acredito, realmente, que essa vida não se prolonga e que chance é somente uma. Eu via um homem amarelado, gelado e duro. Eu via pessoas que amo ao redor desse homem, chorando a perda, com os narizes vermelhos, trocando frases nostálgicas sobre a infância em Mutum. Eu não entendo como ficar ao lado dele diminuiria a nossa dor pois tudo me parece como um culto ao sofrimento. Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela solta no mar com minhas cinzas. Antes disso, quero meu corpo oco, pois sou O+ e meus órgãos servirão pra alguma coisa. Depois não quero saber de missas, de estranhos falando sobre mim como se me conhecessem, de pessoas defendendo Deus e as promessas que os homens inventam em nome Dele. Quero morrer em silêncio e encontrar o esquecimento.